Ascarelli, Lauro, Ferlaino e De Laurentiis: a ceia impossível que traça 100 anos do Napoli
Uma ceia literária reúne Ascarelli, Lauro, Ferlaino e De Laurentiis para contar 100 anos do Napoli: arquivo, poder e identidade em diálogo.
RESUMO ✦
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Ascarelli, Lauro, Ferlaino e De Laurentiis: a ceia impossível que traça 100 anos do Napoli
Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em Una Cena Lunga Cent'Anni, livro de Vincenzo Imperatore publicado pela Garrincha Edizioni com prefácio de Mimmo Carratelli, uma mesa reúne — numa hipótese literária — quatro presidentes que moldaram a história do Napoli. A proposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: transformar a História em conversa. É uma operação de arquivo, imaginação e interpretação que permite ler o clube não apenas como resultado esportivo, mas como mapa de transformação social e cultural da cidade.
O encontro imaginado no livro põe lado a lado Giorgio Ascarelli, fundador que morreu de peritonite antes que alguns dos seus sucessores nascessem; Achille Lauro, figura de poder e representação política; Corrado Ferlaino, gestor que levou o clube a outra dimensão; e Aurelio De Laurentiis, produtor que converteu o futebol em espetáculo e negócio. Dois dos personagens — Ferlaino e De Laurentiis — nasceram depois da morte do fundador, fato que torna a ceia ainda mais simbólica: é a confluência de memórias, projetos e modelos de poder que nunca se encontraram de fato, mas que dialogam aqui através da escrita.
O talento do autor está na precisão documental e na capacidade de dramatizar sem teatralizar. O proêmio remete, com elegância, àquelas sombras interiores da tradição eduardiana e às tragicomédias de linguagem que habitam o teatro napolitano contemporâneo — um gesto que situa a narrativa numa genealogia cultural tão relevante quanto o próprio relato esportivo. Mas o corpo do livro é trabalho de arquivo: cartas, recortes, decisões administrativas e episódios anedóticos fungem como tijolos para reconstruir cada época.
Na mesa imaginária, De Laurentiis surge com seu timbre rouco e a atenção para detalhes operacionais — da mise en place à temperatura da água — indicando a visão industrial e midiática que trouxe ao clube. Ferlaino aparece apressado, com o dialeto e a presença que intimidam e encantam; Lauro, por sua vez, é o homem do gesto demolidor e da solução imediata: dono de um poder político que fez do Napoli um veículo de projeção pessoal. O fundador Ascarelli parece, paradoxalmente, o mais moderno: pensa estádio, estrutura, futuro — compreende que um clube é instituição além do jogo.
Uma cena resume o futebol de outra era: para adquirir Jeppson, Achille Lauro teria ido ao presidente do Atalanta com uma mala cheia de notas — 105 milhões de liras, dispostos em 10.500 cédulas de 10.000. É um retrato material e simbólico de uma época em que o dinheiro circulava de forma mais visceral, menos mediada, e que fala da artesanalidade e da personalidade que moldavam o futebol italiano do pós-guerra.
O mérito do livro está em não reduzir os quatro presidentes a caricaturas. Cada um representa uma forma diversa de conceber o clube: paixão e instituição, espetáculo e instrumento de poder, negócio e símbolo. Em última instância, o centro da conversa é o próprio Napoli, a cidade que o sustenta e que é sustentada por ele — uma entidade viva feita de legados, contradições e imaginações públicas.
Como analista, vejo nesta ceia literária uma hipótese metodológica valiosa: quando colocamos figuras díspares em diálogo imaginado, não criamos fábulas vazias; produzimos espaçostemporais onde se torna possível ver continuidades e rupturas. O futebol, entendido assim, deixa de ser apenas disputa por pontos e vira dispositivo de leitura histórica. O livro de Vincenzo Imperatore cumpre essa função com rigor e delicadeza: documenta, dramatiza e, sobretudo, convida à reflexão sobre o que um clube significa para uma cidade e para sua memória coletiva.
Para o leitor interessado na história do futebol italiano, e especialmente na trajetória singular do Napoli, a obra é leitura imprescindível — não por recorrer ao sensacionalismo, mas por recompor camadas que explicam como o clube deixou de ser apenas time para virar fenômeno social.