Bruno Conti se despede da AS Roma após 53 anos de ligação íntima com o clube

Bruno Conti se despede da AS Roma após 53 anos: jogador, formador e símbolo do clube que agora opta por cuidar da saúde e da família.

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Bruno Conti se despede da AS Roma após 53 anos de ligação íntima com o clube

Era 1973 quando um jovem de Nettuno apareceu pela primeira vez no campo do Tre Fontane. Chamava‑se Bruno Conti, tinha sido rejeitado por Herrera no Inter e quase aceitou uma proposta do Santa Monica — onde poderia até jogar beisebol — antes de ouvir o chamado da AS Roma. Aquela chamada mudou a sua vida e, agora, mais de meio século depois, chega o momento de uma despedida formal que marca o fim de uma era.

As imagens das suas corridas pela ala, dos dribles curtos e dos cruzamentos milimétricos permanecem vivas na memória dos tifosi: o pé esquerdo macio, os lances imprevisíveis, os golos que lhe valeram prestígio e o apelido de “Marazico”, cunhado por Pelé após o Mundial em que brilhou como protagonista.

Foram 53 anos de vínculo com a Roma — 18 como jogador (com duas temporadas em empréstimo ao Genoa), durante as quais conquistou um scudetto, cinco Coppa Italia, disputou uma final de Taça dos Campeões Europeus e sagrou‑se campeão do mundo. Depois, transformou o seu lugar no clube: primeiro atleta, depois dirigente e treinador; e, a partir de 1994, chefe do setor juvenil, onde consolidou a sua reputação como um dos mais perspicazes olheiros da Europa.

Nos últimos dias, as mensagens de afeto multiplicaram‑se — privadas e públicas. Entre elas, a do filho Daniele, que escreveu: "Pai, se fecha um capítulo imenso. Por 53 anos a Roma foi a tua casa. Ganhastes tudo, mas o maior troféu foi connosco, porque além de um fora‑de‑série no campo, és um campeão na vida."

A direção giallorossa pediu a Conti que permanecesse pelo menos mais um ano para orientar os jovens, mas ele, recentemente recuperado de uma batalha contra um tumor pulmonar, agradeceu e recusou. O contrato expirou ontem e, ao deixar Trigoria, contou da emoção de esvaziar seu escritório entre colegas e funcionários. "Decidi assim porque, aos 71 anos, quero realmente desfrutar da minha saúde, da minha mulher e da minha família", disse.

O adeus formal porém não será absoluto: os proprietários, os Friedkin, garantiram que Conti será envolvido nas iniciativas do ano do centenário do clube — reconhecimento de uma história que ultrapassa o papel institucional e entra no imaginário coletivo da cidade.

Na função de formador e caçador de talentos, a marca de Conti é inconfundível. Com paciência e um olhar clínico, acompanhou gerações que se tornaram nomes centrais para a Roma e para o futebol italiano: entre os mais notórios, Daniele De Rossi, Alberto Aquilani, Lorenzo Pellegrini, Matteo Politano, Gianluca Scamacca, Riccardo Calafiori, Davide Frattesi, Alessandro Florenzi e Edoardo Bove — jogadores cuja trajetória guarda a sua assinatura de método e afeto.

Mais do que estatísticas, a saída de Bruno Conti inaugura uma reflexão sobre o papel das figuras que atravessam um clube como património cultural. Em tempos de gestão profissionalizada, a figura de Conti é ponte entre memória e futuro: alguém que traduziu, com coerência quotidiana, o que significa pertencer a uma cidade e a uma cor. A sua decisão de priorizar saúde e família é também um gesto simbólico: reconhecimento dos limites humanos depois de uma vida dedicada a construir talentos e preservar uma identidade.

Ao despedir‑se do seu posto formal, Conti deixa um legado de formação, uma galeria de jogadores moldados por ele e uma presença que, seguramente, continuará a ser convocada quando a Roma quiser olhar para a sua própria história com respeito e sentido.