Duas estrelas do surf dos EUA escolhem a Itália e miram Los Angeles 2028
Nora Liotta e Zoe Benedetto obtêm cidadania italiana e passam a integrar o projeto olímpico do surf rumo a Los Angeles 2028.
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Duas estrelas do surf dos EUA escolhem a Itália e miram Los Angeles 2028
Por Otávio Marchesini — A chegada ao quadro olímpico do surf tem sido, desde Tóquio 2020, um catalisador de transformações que ultrapassam as pranchas: disciplina, identidade e políticas desportivas são reescritas à medida que novos talentos e novas nacionalidades entram em cena. Nesta perspectiva, a concessão de cidadania italiana a Nora Liotta e Zoe Benedetto representa mais que uma jogada técnica para os Jogos — é um movimento que diz respeito à construção de um projeto coletivo, à inserção do surf na paisagem esportiva e cultural da Itália.
As duas jovens norte-americanas formalizaram a possibilidade de competir pela Itália e passam a integrar o plano olímpico azzurro com a meta clara de Los Angeles 2028. A operação, conduzida pela FISSW (Federazione Italiana Surfing, Sci Nautico e Wakeboard), cuidou dos trâmites administrativos necessários para que ambas possam representar o país em eventos internacionais.
O contexto importa: desde que o surf se tornou esporte olímpico em Tóquio, sua percepção pública mudou radicalmente. O evento inaugural abriu portas e legitimidade; as imagens das ondas extremas de Teahupo'o, em Taiti, em edições subsequentes, ampliaram o público e também a responsabilidade das federações em estruturar percursos de formação e competição. Na Itália, esse crescimento é concreto: escolas de surf proliferam, circuitos nacionais se consolidam e há uma tentativa explícita de traduzir paixão costeira em rendimento esportivo.
Nora Liotta, nascida em 2004 e criada em Maui, nas Hawai'i, traz na trajetória elementos tanto do ethos das ilhas quanto de uma profissionalização precoce. A família mudou-se para a ilha quando ela tinha cerca de dez anos — um começo relativamente tardio para padrões de elite, mas que não impediu seu rápido avanço. Nora integrou as competições juvenis locais, entrou no circuito da World Surf League, somou uma vitória no Qualifying Series no Sunset Pro e participou do Challenger Series, etapa de acesso ao Championship Tour. Suas sessões frequentes em Ho'okipa, na North Shore de Maui, a colocaram em contato com um surf de alto risco e grande técnica, capital simbólico que agora transporta para o projeto italiano.
Zoe Benedetto, nascida em 2005 na região de Stuart/Palm City, na Flórida, segue uma linhagem diferente, ligada ao litoral atlântico e à competição desde muito cedo. Introduzida ao esporte pela mãe, instrutora em surf camp, Zoe competia em circuitos juvenis já aos 9-10 anos e depois firmou atuações relevantes no Qualifying Series da World Surf League. Fora das competições, sua atuação em iniciativas de proteção dos oceanos reforça um perfil de atleta-cidadã, cada vez mais requisitado por federações que precisam unir desempenho e responsabilidade ambiental.
Para a Itália, a incorporação dessas duas atletas não é apenas um ganho técnico imediato: é um sinal de ambição e de reconhecimento da necessidade de pensamento estratégico. O país, que historicamente tem uma relação afetiva com o mar, busca agora traduzir essa tradição em resultados esportivos e em políticas de formação que permitam consolidar um espaço competitivo próprio no circuito mundial.
Resta acompanhar como a integração administrativa e esportiva será gerida — desde a logística de competições até a construção de uma identidade azzurra para atletas nascidas e formadas fora do país. Se Los Angeles 2028 pode parecer ainda distante, a decisão da FISSW e o gesto das surfistas marcam o início de uma narrativa que une memórias familiares, circulação global de talentos e a ambição de transformar ondas em patrimônio esportivo nacional.