Infantino isolado: cresce reação de federações e confederações contra plano de abrir a FIFA a investidores
Proposta de Infantino para abrir a FIFA a investidores gera frente de oposição entre UEFA, federações e confederações; risco de boicote aos Mundiais.
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Infantino isolado: cresce reação de federações e confederações contra plano de abrir a FIFA a investidores
Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O projeto de Gianni Infantino para permitir a entrada de capital privado na gestão das atividades comerciais da FIFA instalou uma crise de legitimidade que ultrapassa disputas internas e toca o coração institucional do futebol mundial. A proposta de criação da FIFA Forward Enterprise (FFE) — uma nova empresa controlada pela federação internacional destinada a concentrar receitas e organização de eventos e a captar até US$ 20 bilhões de investidores externos — provocou uma reação em cadeia entre confederações, federações nacionais e autoridades públicas.
Depois da dura tomada de posição da UEFA, formando um primeiro bloco de oposição que advertiu que "o futebol não está à venda", a controvérsia ganhou novas vozes: a Football Association inglesa declarou estar "profundamente preocupada" por não ter sido consultada; a Concacaf criticou a ausência de um processo decisório regular; e o comissário europeu para o Desporto, Glenn Micallef, assinalou sérias reservas sobre o modelo proposto.
O cerne da disputa é também simbólico. Ao concentrar direitos e receitas num veículo susceptível de atrair investidores privados, a iniciativa desafia o papel regulador da FIFA e desloca para o mercado o controle de competições que historicamente se definiram como bens coletivos do esporte. Esse movimento suscita preocupações sobre a comercialização excessiva do futebol, conflitos de interesse e a erosão de valores institucionais que ligam clubes, torcedores e comunidades.
A UEFA não se limitou ao discurso: avaliou a possibilidade de um boicote aos Mundiais organizados sob o novo esquema e convocou, para esta semana, uma reunião de emergência com as 55 federações filiadas para contrapor o plano de Infantino. Entre as críticas, há relatos — citados pela BBC — de que até vice-presidentes e outros executivos dentro da própria estrutura da FIFA não foram adequadamente envolvidos nas discussões preliminares.
Figuras políticas também ingressaram no debate. O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, defendeu publicamente a posição europeia afirmando que "o futebol pertence aos torcedores, não aos investidores" — uma frase que resume a dimensão cultural e social que o tema assume em países onde o jogo é parte do tecido coletivo.
As federações de Alemanha, França e Espanha se somaram à onda crítica. Hans-Joachim Watzke, vice-presidente da federação alemã, qualificou o projeto como um "ataque ao futebol"; o presidente da federação francesa, Philippe Diallo, lamentou a ausência de diálogo; e Javier Tebas, presidente da LaLiga, afirmou que as competições da FIFA "não são propriedade pessoal de Infantino" e questionou a transparência do processo.
Como analista que observa o esporte em sua interface política e identitária, não é possível dissociar esta contenda da história recente do futebol: reformas institucionais, pressões por receitas e a crescente profissionalização dos direitos tornaram o aparato esportivo terreno fértil para investidores. A novidade, e o que explica a reação atual, é a intenção explícita de transformar ainda mais a estrutura de governança da instância máxima do futebol em uma lógica corporativa aberta a capital externo.
Nos próximos meses, as federações serão chamadas a votar ou a posicionar-se formalmente sobre a constituição da FFE. A disputa colocará em prova não apenas a liderança de Infantino, mas o próprio equilíbrio entre mercado e comunidade no futebol global. Se for concretizado, o modelo poderá redefinir relações de poder e prioridades econômicas do esporte; se for barrado, reafirmará limites políticos e culturais que muitos consideram intransponíveis.
O desfecho ainda é incerto, mas já ficou claro que a proposta de abrir a FIFA a investidores não é apenas uma questão financeira: é, sobretudo, uma disputa sobre quem deve governar o futebol e com que objetivos.