Infantino anuncia candidatura à presidência da FIFA (2027–2030): bilhões, regras sob medida e poder consolidado
Infantino anuncia candidatura à presidência da FIFA (2027–2030): bilhões em receitas, mudanças estatutárias e controle político consolidado em Vancouver.
RESUMO ✦
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Infantino anuncia candidatura à presidência da FIFA (2027–2030): bilhões, regras sob medida e poder consolidado
O grande congresso mundial do futebol, realizado em Vancouver com cerca de 1.600 delegados de 211 federações, confirmou aquilo que já parecia inevitável: Gianni Infantino irá procurar a reeleição para a presidência da FIFA no mandato 2027–2030. O anúncio, feito pelo próprio dirigente no encerramento dos trabalhos — “queria que vocês fossem os primeiros a saber” —, sela um processo de centralização de poder cujo contorno político e institucional merece análise cuidadosa.
O congresso começou com um episódio revelador: o pedido (rejeitado) de proteção pessoal em nível 4 — equiparável àquela conferida ao presidente dos Estados Unidos — e percorreu temas de governança que vão de medidas disciplinares sobre jogadores que tentem ocultar comunicações em campo até propostas para tornar obrigatório o ingresso de jogadores sub-21 formados nas academias locais. Entre deliberações aparentemente técnicas, sobressaiu a reafirmação do domínio de Infantino sobre a federação mundial.
Parte dessa consolidação passou por alterações estatutárias que, na prática, legitimaram uma nova candidatura: apesar de ter estabelecido inicialmente um limite de três mandatos para a presidência, em dezembro de 2022 um comitê interpretativo decidiu que os primeiros 39 meses do governo de Infantino não seriam contabilizados por terem completado o quadriennio do antecessor Sepp Blatter, afastado após o escândalo de 2015. A consequência prática é simples e direta: Infantino já pavimentou a via para uma terceira eleição nominalmente compatível com as regras vigentes.
No eixo prático do poder, o argumento de Infantino é financeiro. A FIFA elevou as previsões de faturamento para o ciclo 2027–2030 a cerca de 14 bilhões de dólares (11,98 bilhões de euros). Parte da narrativa que seduz federações mais influentes é a distribuição de recursos: a entidade projeta um aumento de 20% nos repasses às federações, atingindo um total estimado em 2,31 bilhões de euros. Em Vancouver também foi aprovado o aumento dos prêmios de participação para as 48 seleções classificadas para a Copa do Mundo de 2026 — cerca de 1,71 milhão de euros a mais por federação —, um argumento material que traduz poder político em apoio.
O ecossistema financeiro que sustenta essa plataforma não se limita a patrocínios: também se apoia em receitas de bilheteria cada vez mais elevadas. Para o Mundial de 2026, os ingressos variam de US$ 60 nas faixas mais populares a até US$ 6.000 nas mais caras; o preço médio da final foi estimado em cerca de 1.200 euros. Esse fluxo de recursos reforça um círculo em que distribuição e tutela se retroalimentam.
Do ponto de vista político, Infantino conta com bases sólidas: o apoio declarado das confederações africana, asiática e sul-americana e a perspectiva de conquistar também a área da Oceania asseguram, na prática, pelo menos 111 dos 211 votos — número suficiente para uma nova vitória sem risco de surpresas. Em 2019 e 2023 o enredo se repetiu: confirmação tranquila na ausência de adversários estruturados.
Mas a história não se esgota nos cheques e nos cliques de confirmação. O que se desenha é uma federação cujo centro de gravidade se desloca em torno de uma figura capaz de traduzir recursos em consenso. A fórmula funciona enquanto a distribuição de bens for percebida como vantajosa e enquanto não emergirem alternativas críveis. Resta, porém, uma questão política e institucional: até que ponto mudanças estatutárias a posteriori e regras calibradas para acomodar lideranças reforçam a governança democrática do futebol global?
Infantino, figura que mistura diplomacia pessoal e pragmatismo econômico — e que não poupa agrados aos poderosos —, tem vencido por esse método. Mas consolidar um “reinado” também implica enfrentar críticas sobre transparência, concentração de poder e a falta de um debate público robusto sobre o futuro do jogo. Essa pode ser a única grande preocupação que persiste para quem hoje detém a presidência da FIFA.
Como repórter de esportes interessado nas tramas que ligam o campo à sociedade, registro que o futebol global atravessa, mais uma vez, uma encruzilhada: entre a segurança financeira que seduz federações e a necessidade de instituições verdadeiramente independentes que garantam legitimidade além dos números.