Maradona: perito afirma que sinais clínicos foram ignorados e questiona assistência domiciliar

Perito afirma que sinais de edema e outros sintomas de Maradona foram ignorados; processo avaliará se a assistência domiciliar foi inadequada.

Maradona: perito afirma que sinais clínicos foram ignorados e questiona assistência domiciliar

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Maradona: perito afirma que sinais clínicos foram ignorados e questiona assistência domiciliar

Por Otávio Marchesini, Espresso Italia

Em uma audiência que volta a colocar em evidência a tragédia humana por trás de um ícone do futebol, o médico legista Carlos Cassinelli afirmou que diversos sinais de alarme apresentados por Maradona nos dias anteriores à sua morte não teriam recebido a devida atenção. As declarações constam no processo que envolve sete profissionais de saúde, acusados de possível negligência médica que teria contribuído para o óbito do ex-campeão.

Segundo a reconstrução feita pelo perito, o quadro clínico do ex-craque — reconhecido tanto por sua trajetória no FC Barcelona quanto na SSC Napoli — incluía edema nos membros inferiores, gonfamento dos dedos, distúrbios respiratórios, hipertensão arterial e uma frequência cardíaca anormalmente elevada. Para Cassinelli, esse conjunto de sinais exigia esclarecimentos imediatos e exames complementares: «Ninguém verificou qual era a causa daquele gonfiore», declarou, sublinhando que o edema poderia ser manifestação de uma condição potencialmente fatal.

O perito também apontou que a situação clínica se agravou após a alta hospitalar. Na sua avaliação, dar prosseguimento ao tratamento em casa constituiu uma escolha inadequada frente à gravidade dos sintomas, que demandavam monitoramento contínuo e intervenções mais intensivas. Cassinelli estimou ainda que o antigo camisa 10 teria permanecido em sofrimento por cerca de 12 horas antes de morrer.

Do outro lado, os sete profissionais de saúde citados no processo rejeitam qualquer responsabilidade. A defesa sustenta que a morte se deu por causas naturais e recorda o histórico de problemas relacionados ao uso de cocaína e ao alcoolismo, fatores que, segundo os advogados, influenciam o desfecho clínico e afetam o prognóstico.

O processo judicial agora precisa avaliar se os sinais clínicos observados nos dias anteriores foram efetivamente subestimados e, principalmente, se uma conduta médica distinta poderia ter alterado o curso dos acontecimentos. Trata-se de uma pergunta que transborda a esfera técnica: envolve escolhas institucionais sobre a vigilância de pacientes frágeis, a responsabilidade profissional e a interface entre assistência hospitalar e domiciliar.

Enquanto o Tribunal busca estabelecer responsabilidades, o caso de Maradona ressoa além da medicina e do futebol. Em uma sociedade onde figuras esportivas se tornam símbolos coletivos, a morte de um ícone obriga a uma reflexão sobre como se organiza o cuidado de quem, apesar do prestígio, permanece vulnerável. A história não permite simplificações fáceis: há aqui elementos médicos, jurídicos e culturais que precisam ser devidamente pesados.

O desfecho do processo poderá lançar luz sobre práticas clínicas e sobre os limites da responsabilidade profissional em um contexto em que a reverência ao passado esportivo não deve obscurecer um dever básico: a preservação da vida e da dignidade do paciente.