Torres segue como o clube feminino mais vitorioso da Itália: a reconstrução social e esportiva sob Andrea Budroni

Torres permanece o clube feminino mais vitorioso da Itália. Andrea Budroni tenta reconstruir projeto esportivo e social após crises e reinícios.

Torres segue como o clube feminino mais vitorioso da Itália: a reconstrução social e esportiva sob Andrea Budroni

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Torres segue como o clube feminino mais vitorioso da Itália: a reconstrução social e esportiva sob Andrea Budroni

Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia

Ainda hoje, quando se percorre a memória do futebol feminino italiano, há um emblema que resiste ao desgaste do tempo: a Torres de Sassari. Com um palmarés que inclui sete scudetti, oito Coppe Italia e sete Supercoppe Italiane, a agremiação sarda mantém-se, historicamente, como o clube mais titolato do país — um legado que não se apaga apesar das transformações recentes no cenário do futebol feminino em Itália.

A epopeia da Torres entre 1990 e 2013 construiu-se também por meio de nomes que se tornaram referência: Elisa Bartoli, Betty Bavagnoli, Milena Bertolini, Pamela Conti, Giulia Domenichetti, Silvia Fuselli, Rita Guarino, Carolina Morace, Patrizia Panico, Ángeles Parejo, Elisabetta Tona e as sardas Antonella Carta e Manuela Tesse. Muitas dessas jogadoras deixaram marcas que transcendem gols e troféus: simbolizam trajetórias essenciais para a afirmação do futebol feminino italiano.

No plano internacional, o clube participou seis vezes da agora chamada Champions League (antiga Uefa Women’s Cup), alcançando as quartas de final nas temporadas 2009-2010, 2012-2013 e 2013-2014 — resultados que atestam, em campo, a competitividade da Torres nas melhores noites europeias.

Porém, a história do clube também foi marcada por rupturas e reestruturações. Em 2014, a aquisição pela S.E.F. Torres 1903 — entidade até então dedicada apenas ao futebol masculino — abriu uma nova fase que terminou, dois anos depois, com a exclusão da Torres da Serie A na temporada 2015-2016 por inadempienze financeiras. Seguiu-se um ano de inatividade e a necessidade de recomeçar a partir da Serie C regional.

Desde a refundação, quem assumiu a responsabilidade de reconstruir o projeto foi o commercialista Andrea Budroni, hoje no décimo ano à frente do clube. O percurso sob sua presidência teve altos e baixos: duas subidas à Serie B (2017 e 2021) mostraram capacidade de recuperação, mas ajustes regulatorios do campeonato e novas dissoluções expuseram fragilidades estruturais longe dos relvados.

No verão de 2023, Budroni lamentou a perda de apoio por parte de sócios e parceiros, e o clube teve de recomeçar da Eccellenza, adotando a denominação atual Women Torres Calcio. A decisão de abdicar de um patamar como a Serie B foi, nas palavras do presidente, um episódio doloroso: «Dover rinunciare a un campionato bello e importante come la B fu un evento che tuttora non esito a definire luttuoso» — uma ferida que simboliza muito do que ainda precisa ser refeito na gestão e no financiamento do futebol feminino local.

Hoje, o desafio de Budroni e da comunidade em torno da Torres vai além de voltar a conquistar troféus. Trata-se de afirmar um projeto sustentável, capaz de conciliar respeito à tradição e adaptação às novas exigências do esporte profissional. A satisfação, diz o presidente, chega também do trabalho social: a retomada do clube passa por iniciativas de base, formação feminina e integração com a cidade, porque estádios e camisetas são, antes de tudo, parte de uma memória coletiva.

Se o passado glorioso da Torres dificilmente se repetirá na mesma escala, a narrativa atual mostra um clube em busca de reinvenção: preservando a história, alimentando identidades locais e tentando transformar as cicatrizes administrativas em aprendizados que permitam, um dia, olhar novamente rumo às primeiras divisões com estabilidade e ambição.