Recuo da FIFA sobre investidores privados: UEFA declara perda de confiança em Infantino

UEFA diz ter perdido confiança em Infantino após recuo da FIFA sobre investidores; mobilização global exige reformas e responsabilização.

Recuo da FIFA sobre investidores privados: UEFA declara perda de confiança em Infantino

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Recuo da FIFA sobre investidores privados: UEFA declara perda de confiança em Infantino

Por Otávio Marchesini, Espresso Italia

O surpreendente recuo da FIFA no projeto de abertura a investidores privados deixou uma marca profunda na governança do futebol mundial. Em nota oficial, a UEFA celebra a retirada da proposta, mas avisa que a simples desistência não é suficiente: "A atual direção da FIFA não apenas perdeu a confiança da UEFA, mas também de muitos outros membros da família do futebol".

A confederação europeia anunciou que, nas próximas semanas, trabalhará com as suas federações e em estreita colaboração com as demais confederações para entender como o plano foi concebido e implementado com tanta rapidez. O objetivo declarado é elaborar um plano que garanta que episódios semelhantes não voltem a acontecer. A revisão pedida pela UEFA deverá ser "aprofundada e radical" e nenhuma opção será excluída.

O episódio remete a tensões anteriores, como o impacto da proposta da Superlega, mas a dimensão do projeto da FIFA — criar uma entidade comercial para gerir ativos e abrir espaço a capitais privados — foi descrita pela UEFA como um potencial "furacão" para o futebol mundial. Na prática, tratava-se de repensar o modelo de propriedade e distribuição de receitas de uma instituição que tem responsabilidade sobre 211 membros.

Na defesa da retirada do plano, a UEFA agradeceu a ampla mobilização: torcedores, ligas, clubes, jogadores, federações, confederações, bem como diversos primeiros-ministros, chefes de Estado e comentaristas que demonstraram ao presidente da FIFA que "o futebol não está à venda". A mensagem é política tanto quanto esportiva — ao contestar a privatização de fluxos comerciais, a resistência protege um patrimônio simbólico que pertence às comunidades do jogo, e não apenas a acionistas.

A nota da UEFA também defende o uso imediato de recursos hoje parados nos cofres da FIFA, por meio do programa Fifa Forward, para reforçar o futebol de base nos 211 países membros. "Devemos começar a usar parte desses fundos inutilizados para dar impulso ao futebol de base e ao futebol em geral — sem, contudo, vender o patrimônio coletivo para financiá-lo", diz o comunicado.

O recuo da FIFA foi acompanhado pela renúncia de figuras internas: Carlos Cordeiro, conselheiro principal do presidente Gianni Infantino, apresentou demissão imediata e repudiou a iniciativa. Em um post no LinkedIn, Carlos Cordeiro afirmou não ter participado da proposta e declarou-se contrário ao projeto, considerando-o prejudicial às federações e ao futuro do esporte.

Reportagens do Financial Times e do Times forçaram a saída do plano ao revelar detalhes que, segundo críticos, foram elaborados de forma secreta e num ritmo acelerado por indivíduos "sem rosto". A UEFA exige agora identificar responsáveis e responsabilizá-los. Para a confederação, a retirada representa uma vitória coletiva, mas o trabalho de reconstrução da confiança na FIFA está apenas começando.

Como analista, é inevitável ver neste episódio não apenas uma crise de gestão, mas um choque de visões sobre o papel do futebol no espaço público. A comercialização conduzida sem legitimidade democrática corroeu a confiança. A resposta das sociedades — de torcedores a líderes políticos — mostra que o futebol continua sendo um bem cultural que traduza identidades, memórias e expectativas sociais. As próximas semanas dirão se haverá uma reforma capaz de reconectar as instituições do futebol com aqueles a quem realmente servem.