Por que o excesso de peso aumenta o risco de câncer? Tipos de tumores, mecanismos e parâmetros a monitorar
Excesso de peso aumenta o risco de vários cânceres: entenda tipos, mecanismos (insulina, inflamação) e parâmetros essenciais para monitorar.
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Por que o excesso de peso aumenta o risco de câncer? Tipos de tumores, mecanismos e parâmetros a monitorar
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes e analista sóbrio da Espresso Italia.
O mundo registra hoje mais de dois bilhões de pessoas em sobrepeso ou obesidade, um fenômeno que continua em expansão e já atinge percentuais significativos também na Itália, inclusive entre crianças e adolescentes. Especialistas alertam há anos: os quilos a mais não são apenas uma questão estética, mas um importante determinante de saúde pública. Estima-se que o excesso de peso acometa cerca de 30% da população e seja responsável por mais de 4 milhões de mortes por ano — 40% dessas mortes ocorrem em pessoas que eram “apenas” sobrepeso, não obesas. Além das doenças cardiovasculares, cresce a fração de óbitos atribuíveis a diferentes tipos de câncer.
1) Quais doenças estão ligadas ao excesso de peso?
O excesso de massa corporal está associado a maior mortalidade prematura e é reconhecido como fator de risco para doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e diabetes. Como lembra a oncologista Rossana Berardi, presidente eleita da Associazione Italiana di Oncologia Medica (Aiom), a lista é extensa: hipertensão, dislipidemias, apneia do sono, problemas respiratórios, asma, complicações na gravidez, dificuldades de saúde mental como depressão, além de uma incidência crescente de tumores.
2) Quais tumores estão ligados ao sobrepeso e à obesidade?
Segundo estimativas recentes, o sobrepeso e a obesidade explicam cerca de 3% de todos os tumores em homens na Itália e aproximadamente 7% entre as mulheres. São fatores de risco estabelecidos para câncer de endométrio, cólon e reto, esôfago, rim, pâncreas e mama — especialmente em mulheres na pós-menopausa. Estudos mais recentes, como revisão publicada em revista de prestígio, ampliam a lista incluindo tumores do estômago, fígado, vesícula biliar, pâncreas, próstata, ovário, tireoide e mieloma múltiplo.
3) Como se explica a associação entre obesidade e câncer?
Não há uma única explicação causal, mas um conjunto de mecanismos biológicos convergentes. Nicola Silvestris, diretor do Departamento de Área Médica do IRCCS Istituto Tumori Giovanni Paolo II de Bari e secretário nacional da Aiom, aponta caminhos bem conhecidos: níveis elevados de insulina e fatores de crescimento análogos à insulina (consequência da resistência insulínica) favorecem proliferação celular e podem promover tumores como os colorretais e renais. O tecido adiposo em excesso gera um estado de inflamação crônica, altera a produção de adipocinas (como leptina e adiponectina) e modifica a síntese de hormônios sexuais — em mulheres, o tecido adiposo aumenta a conversão de andrógenos em estrogênios, fator implicado em câncer de mama e endométrio.
4) Quais parâmetros médicos e metabólicos é importante monitorar?
Para avaliação clínica e vigilância, além do índice de massa corporal (IMC), recomenda-se medir a circunferência da cintura como marcador de adiposidade visceral. Exames laboratoriais úteis incluem glicemia de jejum, hemoglobina glicada (HbA1c), insulina em jejum (quando indicado), perfil lipídico, função hepática e, em contextos específicos, marcadores inflamatórios básicos como PCR. Pressão arterial, histórico familiar, estado reprodutivo (menopausa) e estilo de vida também são determinantes para estratificação de risco.
5) O que reduzir o peso muda no risco de câncer e quais medidas prevenir?
Há evidências de que perda de peso sustentada reduz o risco de desenvolver vários tipos de câncer relacionados ao excesso de gordura corporal. Intervenções em nível populacional e individual — alimentação equilibrada, atividade física regular, políticas públicas que favoreçam ambientes mais saudáveis e, em casos selecionados, tratamentos médicos ou cirúrgicos para obesidade — têm impacto comprovado sobre fatores metabólicos e inflamatórios. A mensagem clínica é clara: prevenção e tratamento do sobrepeso não são apenas estratégias para reduzir doenças cardiovasculares, mas parte integrante da luta contra o câncer.
Como analista que procura ligar esporte, sociedade e saúde, é importante lembrar que o fenômeno da obesidade reflete escolhas individuais, modelos urbanos, disponibilidade de alimentos e desigualdades sociais. Combater o excesso de peso exige respostas multidimensionais — da educação nutricional à reestruturação de cidades — para que o esporte e a atividade física deixem de ser privilégio e se tornem instrumentos reais de saúde pública.
Fontes citadas: declarações de Rossana Berardi (Aiom) e Nicola Silvestris (IRCCS Istituto Tumori Giovanni Paolo II); revisão de literatura recente sobre obesidade e risco de câncer.