Geração “segunda-mão”: como Gen Z e Millennials transformam em tempo real a moda inspirada na cultura pop
Como Gen Z e Millennials usam a cultura pop e o recommerce para ditar tendências em tempo real, segundo o eBay Watchlist SS 2026.
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Geração “segunda-mão”: como Gen Z e Millennials transformam em tempo real a moda inspirada na cultura pop
Por Chiara Lombardi — Do tapete vermelho aos aplicativos de revenda, um novo roteiro está sendo escrito no circuito da moda: a cultura pop e os jovens consumidores redefinem não só o que queremos vestir, mas o ritmo em que os desejos se transformam em compras. O relatório eBay Watchlist Spring/Summer 2026, publicado em 14 de maio, mapeia essa mutação e revela números que funcionam como um espelho do nosso tempo.
Com um banco de dados que abrange cerca de 136 milhões de compradores ativos e aproximadamente 2,5 bilhões de anúncios, o estudo confirma um fenômeno que já se desenhava: a preferência pelo second-hand deixou de ser apenas uma postura ética ou econômica para se tornar a força mais dinâmica da cena fashion. Em um mercado que fechou 2025 com um volume bruto de mercadorias vendidas (GMV) próximo a 80 bilhões de dólares, a moda pre-loved age hoje como bússola imediata do desejo coletivo.
O comportamento é simples e revelador: diante de uma inspiração — seja um look visto no red carpet, um frame viral de série ou a aparência icônica de um artista em show — a primeira reação de muitos jovens é abrir um app de revenda. Esse impulso “second-hand first” encurta o hiato histórico entre passarela e rua; as tendências deixam de esperar os seis meses tradicionais e nascem e se propagam no compasso acelerado da pop culture.
Não são apenas os micro-trends efêmeros do TikTok que movem volumes, mas eventos midiáticos bem definidos. Um exemplo claro é o impacto global do estilo de Bad Bunny: suas colaborações com Adidas provocam ondas instantâneas de buscas por modelos de arquivo a cada aparição pública. Outro caso paradigmático é o revival dos anos 1990 impulsionado por Love Story, que acelerou a busca por peças de época em marketplaces de recommerce.
Como observa Brie Welch, resident stylist da eBay, o recommerce “não gira mais em torno do ciclo da moda, mas é parte integrante dele: movimenta-se à mesma velocidade e, às vezes, dita o ritmo”. Essa frase sintetiza a transformação: o mercado de segunda-mão deixou de ser um seguidor para assumir posição de coautor — ou mesmo de protagonista — na escrita do presente estético.
Por trás dessa sincronia está uma infraestrutura tecnológica global nascida em San Jose em 1995 e hoje atuante em mais de 190 mercados. A análise desses fluxos permitiu ao relatório identificar indicadores que medem como a cultura visual contemporânea se espalha — entre eles, o chamado “Efeito CBK”, que cristaliza a velocidade com que um elemento cultural gera demanda de recommerce.
Como analista cultural, vejo essa revolução como um reframe da realidade social: a moda second-hand funciona agora como um espelho do zeitgeist, traduzindo memórias coletivas, referências midiáticas e desejos geracionais em peças tangíveis. Para a Gen Z e os Millennials, comprar usado não é só economia, é um gesto semiótico — uma curadoria de identidade que dialoga diretamente com o roteiro oculto da sociedade.
O que muda na prática? Marcas e estilistas precisam estar atentos não apenas às semanas de moda, mas ao pulso instantâneo das redes, dos shows e das séries; os varejistas devem integrar o recommerce às suas estratégias; e os consumidores, sobretudo os jovens, consolidam um papel ativo na criação de tendências. Em suma, a moda se tornou um filme em tempo real, onde cada aparição pública pode ser o corte decisivo para a próxima cena viral.
Enquanto alguns ainda pensam a revenda como um estágio tardio do ciclo fashion, o relatório da eBay mostra que estamos diante de um novo sistema narrativo — rápido, interconectado e profundamente influenciado pela cultura pop. É a geração segunda-mão ditando o ritmo, reescrevendo regras e oferecendo ao mercado uma lente mais ágil e verdadeira para interpretar os sinais visuais do nosso tempo.