Por que Alexander McQueen está em crise: das noivas reais às sneakers brancas que dominaram (e depois traíram) a marca
Crise na Alexander McQueen: das noivas reais às sneakers brancas que dominaram a receita e expuseram a fragilidade do legado da marca.
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Por que Alexander McQueen está em crise: das noivas reais às sneakers brancas que dominaram (e depois traíram) a marca
Por Chiara Lombardi — O drama de Alexander McQueen hoje revela uma lição dura sobre herança criativa e economia do desejo: uma casa de moda pode sobreviver sem o seu autor? Desde a morte do fundador, em 2010, essa pergunta deixou de ser retórica. Na ausência do gênio teatral que tornava cada desfile um show — criaturas proféticas, armaduras de alta-costura, sapatos-armadillo — o rótulo foi obrigado a se reinventar. A trajetória seguinte é quase um roteiro trágico: Sarah Burton assumiu a tutela da memória do estilista, e depois Seán McGirr ocupou a direção. Mas arte e finanças nem sempre dançam no mesmo compasso.
Hoje, os números contam uma história de ruptura: balanços em perda, um amplo plano de reestruturação, fechamento de lojas e cortes de pessoal. O grupo Kering confirmou demissões tanto em Londres quanto em unidades produtivas italianas. A metáfora é crua — o coração artístico seguiu batendo, mas o corpo financeiro entrou em choque.
O que deu errado? A transformação do imaginário público. Onde outrora se evocavam visões góticas e o virtuosismo sartorial do criador, a marca passou a ser identificada pelo par de sneakers brancas e por uma icônica echarpe com caveiras, talismã da década de 2010. Essas sneakers, minimalistas e distantes da vanguarda original, chegaram a responder por cerca de 80% da receita. Em termos semióticos, foi como ver o roteiro oculto da marca ser reescrito em linguagem industrial: o objeto massificado substituiu a ideia.
O problema foi duplo. Primeiro: a dependência excessiva de um produto de moda casual — as famosas sneakers — transformou o portfólio numa aposta de alto risco. Segundo: o fenômeno do streetwear, que impulsionou muitas casas de moda à venda de volumes, perdeu fôlego. Marcas que pareciam imunes, como Supreme e Off-White, também sentiram o refluxo desse ciclo. Na indústria do desejo, um produto passa; uma ideia permanece. E a percepção pública, como num espelho do nosso tempo, redesenha o valor de um nome.
Sarah Burton tentou equilibrar reverência e usabilidade: alisar arestas do exagero para fazer as criações «vestíveis» — um movimento que rendeu aparições memoráveis, como o vestido de casamento de Kate Middleton. O resultado foi uma marca menos escandalosa, mais palatável ao grande público. Mas, como comentou Luca De Meo, Administrador Delegado do Kering, «Por natureza McQueen nasceu como algo de nicho, de vanguarda. Depois começou a abrir lojas e a fazer produtos acessíveis. Isso não é McQueen».
O ponto de inflexão foi justamente esse: transformar uma grife de culto em commodity. As soluções agora passam por reencontrar a narrativa fundadora — recuperar a força editorial e a matriz criativa — sem, no entanto, abandonar a viabilidade comercial. É um reframe da realidade: resgatar o heritage com iniciativas que revalorizem a alta-costura, reforcem a manufatura italiana e relancem produtos icônicos que lembrem ao público o porquê do fascínio inicial.
Restaurar a aura de Alexander McQueen exigirá coragem estratégica e paciência — uma espécie de montagem cinematográfica em que se escolhem cenas precisas para reconstituir o enredo. Não basta criar mais pares de sneakers; é necessário reescrever a ideia que as sustenta. Se a casa de moda for capaz de transformar sua crise num ponto de virada, poderá emergir não apenas com vendas mais saudáveis, mas com uma nova clareza sobre o papel da marca como espelho do nosso tempo e como geradora de imaginação cultural.