Tribunal de Florença confirma demissão por justa causa de super‑manager da Balenciaga após denúncias de assédio e ambiente degradante
Tribunal de Florença confirma demissão por justa causa de executivo da Balenciaga após denúncias de assédio, toques não consentidos e ambiente degradante.
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Tribunal de Florença confirma demissão por justa causa de super‑manager da Balenciaga após denúncias de assédio e ambiente degradante
Por Chiara Lombardi — Uma sentença do Tribunal de Florença acaba por selar uma narrativa que, embora ligada ao brilho do mundo da moda, reflete um espelho sombrio do cotidiano corporativo: o descarte definitivo de um executivo da Balenciaga acusado de criar um ambiente de trabalho degradante e humilhante. O juiz do trabalho confirmou a demissão sumária do gestor, acolhendo as queixas apresentadas por sete colaboradoras da unidade de Scandicci.
O quadro desenhado nos autos é composto por 18 condutas ilícitas reportadas entre 2021 e 2023 — um roteiro repetido de faltas que, segundo as testemunhas, variava de comentários sexistas até toques físicos não consentidos. As trabalhadoras relataram episódios de assédio sexual, insultos sobre o peso corporal, observações de teor racista e mesmo atitudes que invadiam a intimidade física: beijos, massagens no pescoço e nos ombros e, em pelo menos duas ocasiões, palmadas nos glúteos.
Um dos episódios mais chocantes, citado nas declarações, teria ocorrido durante uma reunião, quando o executivo simulou o toque de uma campainha e disse ao time: “Ragazze, è l'ora del sesso” — frase que, traduzida para o contexto daqui, soou como um convite indecente e objetivo dentro do ambiente profissional. Há ainda relatos de convites para que as colaboradoras não usassem roupas íntimas no local de trabalho, além de um clima geral de intimidação que impedia que as vítimas se sentissem à vontade para falar.
O caso veio à tona após um «listening survey» interno — um inquérito anônimo destinado a mapear o clima organizacional — que apontou pontuação muito baixa na avaliação da “ausência de discriminação” no departamento chefiado pelo executivo. A liderança da empresa, ao tomar conhecimento, ordenou apurações: o departamento de Recursos Humanos realizou entrevistas individuais e protegidas com cerca de dez funcionárias, sem a presença dos superiores, e foi nesse ambiente seguro que emergiram as denúncias formais contra o gerente.
O profissional, na casa dos quarenta anos, recebia salário anual aproximado de 250 mil euros e foi demitido com efeito imediato em 27 de novembro de 2023, após um procedimento disciplinar. Ao recorrer, ele viu o Tribunal de Florença rejeitar seu pedido e validar a demissão por justa causa. A corte considerou verossímeis e suficientes os relatos das sete colaboradoras para classificar o clima como “degradante e humilhante”.
A resposta do grupo da moda até o momento seguiu o clássico silêncio corporativo: oficialmente, a marca declarou “no comment”. Mas o silêncio institucional não apaga a reverberação desse episódio no tecido cultural. A controvérsia não é apenas sobre um líder tóxico: é sobre o roteiro oculto que permite que práticas discriminatórias e comportamentos abusivos se naturalizem em departamentos que, por fora, vendem beleza e sofisticação.
Como analista de cultura, sinto que este caso funciona como um espelho do nosso tempo: mostra como imagens públicas de prestígio e glamour podem ocultar dinâmicas de poder e violência simbólica. A decisão judicial reforça que a justiça trabalhista pode ser um mecanismo para reescrever o final de histórias corporativas que, por muito tempo, permaneceram impunes.
Para além da sentença, a pergunta que fica é também um chamado: quais mudanças estruturais e pedagógicas as casas de moda estão dispostas a empreender para que o backstage — literal e metafórico — deixe de reproduzir esse tipo de abuso? O veredito é um marco, mas a verdadeira transformação exige olhar crítico, prevenção e responsabilização contínua. Esse é o reframe da realidade que esperamos ver nas grandes marcas — uma revisão do roteiro que, até agora, favoreceu protagonismos tóxicos em detrimento das vozes vulneráveis.