Oasis: o filme que ressuscita o estilo Gallagher — do parka ao bucket hat
O filme 'Oasis' reativa o guarda-roupa dos Gallagher: do parka ao bucket hat, veja como moda e nostalgia se entrelaçam no retorno da banda.
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Oasis: o filme que ressuscita o estilo Gallagher — do parka ao bucket hat
Por Chiara Lombardi — O lançamento de 'Oasis: Don't Look Back In Anger' funciona como um espelho do nosso tempo: não só revive músicas, mas também reinstala um código estético que vinha dormindo no guarda-roupa coletivo. Ao acompanhar fãs em filas de Londres, Cardiff e Manchester para os shows do tour Live '25, o documentário revela que o retorno dos irmãos Gallagher é, em parte, um retorno de imagem — um reframe da realidade em que peças comuns se tornam símbolos.
No filme, apresentado fora de concurso na Mostra de Veneza e em cartaz nos cinemas desde 10 de setembro, há confissões que parecem saídas de um roteiro íntimo: "Assim que soube da reunião, fui buscar minha Fred Perry no armário para celebrar". Essa declaração sintetiza o que vemos nas ruas — um uniforme resgatado da naftalina após 16 anos. Polo, parka longo com capuz forrado, jeans largos, bucket hat, tênis Adidas, camisetas de futebol e óculos de sol: itens que iam do público para o palco e voltaram, agora com a aura de ícone.
O que me interessa não é apenas a reedição estética, mas o seu significado cultural. Há uma poesia material na maneira como o vestuário dos Oasis transita do cotidiano dos pubs e estádios de Manchester para vitrines e colaborações de moda. A cápsula que a Adidas lançou com a banda no ano passado — tracksuits, jerseys raglan, coach jackets — esgotou em horas. É a semiótica do viral: um capuz militar transformado em manifesto urbano.
O contraste entre os irmãos é quase cinematográfico. Liam Gallagher leva a estética ao extremo: parkas longas, malhas grossas, Clarks, e o eterno chapéu de pescador; Noel Gallagher, o narrador mais contido, converte peças comuns em fetiches pessoais. Uma imagem do filme, de Noel de costas com uma jaqueta Maison Margiela durante um concerto, resume a trajetória dessa estética — do armário de rua ao guarda-roupa da alta-costura. É a passagem de figurino de grassroots para passarela, sem perder o verniz da autenticidade.
Historicamente, o estilo Britpop dos Oasis nunca quis se apresentar como elegante no sentido tradicional. O poder desse vestuário sempre foi a ausência de construção deliberada: eles pegavam o que já circulava nas ruas, entre torcedores, em lojas de bairro — Stone Island, Umbro, Fred Perry, Perry Ellis, Adidas, parkas militares — e, ao usarem, transformavam esses nomes em símbolos imediatos. O filme documenta essa transferência de valor com a mesma precisão com que um diretor enquadra um close que muda nossa leitura do personagem.
Para o fã, vestir-se como um Gallagher é um gesto ritual — parte memória, parte identidade coletiva. Para a indústria da moda, é oportunidade: o resgate do visual traduz-se em vendas, colaborações e em uma nova linha do tempo estética. E para nós, observadores culturais, é um lembrete de que o vestuário é linguagem. O parka e o bucket hat tornam-se, assim, pequenos roteiros de comportamento, ecos socioculturais que dizem tanto sobre nostalgia quanto sobre a forma como construímos pertencimento.
Se o filme é uma projeção do passado, ele também define o guarda-roupa do futuro próximo — aquele que veremos nas arquibancadas, nas filas dos shows e, claro, nas próximas coleções inspiradas pelo que os irmãos de Manchester decidiram usar. Afinal, no grande roteiro oculto da sociedade, a moda costuma ser a trilha sonora silenciosa que dita o tom da cena.

