Baia: o tesouro romano encontra a robótica — a Campânia como laboratório europeu de pesquisa subaquática
Em Baia, a Campânia combina robótica, LiDAR e pesquisa marinha para mapear e proteger o patrimônio romano submerso.
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Baia: o tesouro romano encontra a robótica — a Campânia como laboratório europeu de pesquisa subaquática
Novo e antigo convergem sob a superfície do mar ao longo da costa dos Campos Flegrei: em Baia, o patrimônio romano submerso passa a ser estudado com ferramentas que combinam robótica, sensoriamento avançado e técnicas de reconstrução tridimensional. A Campânia transforma-se, assim, num verdadeiro laboratório europeu onde arqueologia, geologia marinha e conservação ambiental trabalham em camadas integradas — como se o algoritmo passasse a atuar como infraestrutura sobre o alicerce físico do litoral.
O fenômeno do bradisismo, que ao longo dos séculos afundou partes do antigo panorama costeiro, impõe a necessidade de metodologias capazes de documentar de forma precisa e repetível estruturas submersas. Nesse contexto surge o projeto europeu NERITES, financiado pelo programa Horizon Europe, que realizou em Baia uma primeira campanha de testes operacionais entre o fim de agosto e o início de setembro de 2026, na área da Villa dei Pisoni.
O objetivo do NERITES é experimentar uma infraestrutura tecnológica integrada para apoiar a exploração e o monitoramento de sítios arqueológicos submersos. O sistema combina veículos subacquáticos autônomos, redes de sensores, equipamentos de aquisição de imagens e técnicas de reconstrução 3D, complementados por soluções de navegação autônoma e posicionamento de precisão, além de uma estrutura de controle remoto. Essa arquitetura permite coletar informação detalhada sobre as estruturas e acompanhar sua evolução ao longo do tempo, fornecendo dados objetivos para planejar intervenções de tutela.
O CNR-ISMAR de Nápoles participa do projeto com competências em geologia e geofísica marinha, levantamentos de alta resolução e caracterização ambiental. A presença do CNR-ISMAR ressalta como a pesquisa regional se integra numa colaboração internacional onde saberes humanísticos e camadas tecnológicas formam um sistema nervoso capaz de interpretar e preservar o passado.
O trabalho em Baia está inserido num quadro mais amplo de investigação marinha. Um contributo relevante veio do ISPRA, no âmbito do projeto MER (Marine Ecosystem Restoration), que executou em 5 de junho de 2025 um levantamento aéreo LiDAR batimétrico de alta resolução ao longo da costa campana. Embora concebido para mapear habitats marinhos, o levantamento forneceu também uma representação detalhada do fundo do Parque Arqueológico Sommerso de Baia.
A resolução do levantamento, na ordem de um metro quadrado ou superior, permitiu distinguir elementos do paesaggio antigo — as muralhas marinas, o ingresso do Portus Baianus, a Villa dei Pisoni, a Secca Fumosa e o Portus Julius. Esse resultado demonstra que ferramentas desenvolvidas para estudar ecossistemas marinhos podem operar como sensores do patrimônio cultural: a mapeamento do fundo não devolve apenas formas, mas camadas de memória que informam decisões de gestão e conservação.
Do ponto de vista técnico e estratégico, a integração entre sensores, veículos autônomos e plataformas de análise cria uma cadeia de valor que se parece com a infraestrutura urbana: fios invisíveis de dados que alimentam modelos — o algoritmo como infraestrutura — e traduzem variações físicas em sinais interpretáveis. Para a Campânia, isso significa transformar a vulnerabilidade causada pelo bradisismo em oportunidade de inovação científica, garantindo que o conhecimento sobre o patrimônio submerso seja produzido com precisão, auditabilidade e segurança.
Em termos práticos, a abordagem favorece intervenções de conservação mais direcionadas, monitoramento contínuo e a possibilidade de reproduzir metodologias em outros sítios europeus com desafios semelhantes. Baia, portanto, emerge não apenas como local de interesse arqueológico, mas como um nó experimental na rede europeia de pesquisa marinha — uma pequena peça estratégica no sistema nervoso que sustenta a proteção do patrimônio cultural submerso.

