Marina Abramović leva ‘Confession’: um asinello dourado sob o Arco di Giano, convite à confissão pública
Marina Abramović e Alda Fendi apresentam 'Confession': um asinello dourado sob o Arco di Giano, de 19/11/2026 a 19/05/2027. Confissões ao entardecer.
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Marina Abramović leva ‘Confession’: um asinello dourado sob o Arco di Giano, convite à confissão pública
Por Erica Santini — Ciao, amantes do belo e do secreto: sob a luz dourada do entardecer romano, nasce um novo ritual urbano. De 19 de novembro de 2026 a 19 de maio de 2027, o histórico Arco di Giano recebe a instalação Confession, uma escultura de um asinello de ouro que surge como altar e ouvinte, acompanhada de um banco onde qualquer pessoa, das 17h às 21h, poderá sentar-se e revelar em voz alta — ou em silêncio — seus desejos, segredos e angústias.
A obra nasce da sintonia entre a artista Marina Abramović e a mecenas Alda Fendi, e inaugura a nova temporada da Fondazione Alda Fendi Esperimenti. Transformando um lugar carregado de história em um palco sensorial, o projeto estabelece um diálogo inédito entre arte contemporânea, arqueologia e memória — um convite para saborear a história enquanto se escuta o sussurro da cidade.
“O asinello é um elemento tanto político quanto espiritual”, diz Marina Abramović. Na sua leitura, a necessidade íntima da confissão se converte em gesto público num momento particularmente difícil da história humana — marcado por guerras, poluição e corrupção nos governos. Seria, propõe a artista, fascinante ver um político sentar-se diante do asinello para expor suas culpas e também sua visão de futuro. Ou um professor a falar dos seus deveres com as novas gerações. Ou um contadino — um agricultor — a partilhar a sua relação com a terra.
Há, no projeto, uma tensão poética: a vulnerabilidade individual posta em praça pública, o íntimo iluminado pela rua. É também um gesto de esperança: transformar o peso do silêncio em rito comunitário, onde o confessionário é substituído por um interlocutor que não julga, apenas escuta. Andiamo, permita-se imaginar o perfume fugidio dos vinhedos, a textura do tempo nas pedras do Arco e o sussurro das palavras que se dissolvem no ar da cidade — tudo isso como trilha sonora da experiência.
A proposta abre espaço para encontros inesperados e para uma cidadania sensorial — um lembrete de que a arte pode ser lugar de cura, denúncia e reconciliação. Para os romanos e visitantes, Confession é um gesto de hospitalidade sofisticada: um banco, um ouvido de bronze dourado e a possibilidade de transformar o fardo em narrativa coletiva. Dolce Far Niente? Não exatamente — aqui, o ócio encontra propósito e a cidade respira mais leve.
As visitas são livres, no horário indicado, e a obra ficará à vista do público por seis meses, oferecendo inúmeras oportunidades para pequenos rituais pessoais e encontros públicos. Quem sabe — penso eu, com a afeição de uma amiga que empresta segredos durante um aperitivo — você não vá se sentar ali ao cair da tarde e deixar que Roma receba sua confissão?

