Pompeia e a ética da IA: quando imagens geradas transformam vítimas em 'conteúdo' falso
Pompeia alerta contra o uso indevido da IA que transforma vítimas em conteúdo falso; diretor pede rigor científico e ética na comunicação cultural.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Pompeia e a ética da IA: quando imagens geradas transformam vítimas em 'conteúdo' falso
Por Chiara Lombardi — Em um momento em que a tecnologia redefine não apenas como vemos o passado, mas também como o narramos, o Parque Arqueológico de Pompeia acendeu um alerta sobre o uso indevido da inteligência artificial em materiais que retratam as vítimas da erupção do Vesúvio.
O diretor do Parque, Gabriel Zuchtriegel, denunciou a circulação, sobretudo nas redes sociais, de imagens e textos produzidos por ferramentas de IA e apresentados como reconstruções históricas. No centro da polêmica está um post no Instagram, atribuído ao perfil de um professor de química da Universidade dos Estudos de Nápoles Federico II, dedicado à Casa do Bracciale d’Oro. Segundo Zuchtriegel, a peça teria sido criada com recursos artificiais e careceria de qualquer fundamento científico adequado.
Mais grave, alerta o diretor, é a associação dessa narrativa a um portal de arrecadação de fundos, o que transforma a exploração da memória e da dor das vítimas em um instrumento com fins econômicos. "É perturbador, eu diria repugnante, ver um uso completamente distorcido e irresponsável da inteligência artificial para criar imagens e relatos das vítimas de Pompeia nas redes sociais", afirmou Zuchtriegel em nota.
O episódio motivou uma comunicação oficial do Parque à Universidade Federico II, com o objetivo de abrir diálogo e verificar a compatibilidade da atividade com o código ético acadêmico. A preocupação não é apenas com o caso isolado, mas com o efeito mais amplo: a perda de rigor científico na comunicação cultural e o risco de transformar história em espetáculo sensacionalista.
Nos últimos meses o Parque Arqueológico já havia adotado diretrizes específicas para a exposição dos moldes das vítimas da erupção. Essa medida é parte de uma tentativa maior de garantir que a memória material seja tratada com respeito e contexto. O surgimento de imagens fake — alimentadas por algoritmos e compartilhadas sem verificação — funciona como um espelho distorcido do nosso tempo: reproduz memórias como se fossem cenas de cinema, sem o roteiro ético que as sustente.
Como analista cultural, penso que a discussão ultrapassa a técnica. A IA pode ser uma aliada poderosa: restaurações digitais, análises de materiais e reconstruções assistidas podem ampliar nossa compreensão do passado. Mas sem controle, transparência e supervisão cientifica, a tecnologia vira um roteirista oculto que reescreve trajetórias humanas e reconfigura a semiótica do viral.
O desafio, portanto, é duplo: exigir rigor científico nas narrativas geradas e promover uma ética comunicativa que proteja as vítimas reais de serem transformadas em mercadoria digital. Pompeia, enquanto patrimônio da memória coletiva, exige que o uso da tecnologia seja acompanhado por responsabilidade institucional, clareza metodológica e respeito pelo passado — não apenas pela estética do algoritmo.
O caso seguirá em acompanhamento enquanto se aguarda a resposta da Universidade. Até lá, fica o convite a uma reflexão pública: que tipo de memória queremos preservar e quem tem o direito de recontá-la num mundo onde a inteligência artificial sabe criar imagens com a mesma facilidade com que cria dúvidas.

