‘La cassetta degli attrezzi femminista’: a exposição em Roma que mapeia instrumentos de luta e cuidado
Exposição em Roma reúne objetos de luta feminista — de 'vagina dentata' a bolsos — e reconta inventos que estruturam resistência e autodeterminação.
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‘La cassetta degli attrezzi femminista’: a exposição em Roma que mapeia instrumentos de luta e cuidado
Em um espaço modesto, mas historicamente denso, a Casa Internazionale delle Donne, em Roma, reúne uma coleção que funciona como um mapa de resistência: La cassetta degli attrezzi femminista. A exposição — gratuita e montada com recursos limitados — apresenta objetos produzidos por movimentos que lutam pelos direitos das mulheres em diferentes latitudes, traduzindo invenções políticas em ferramentas concretas de proteção, protesto e autodeterminação.
No primeiro andar, em uma sala próxima à Sala Longhi, são exibidos “instrumentos” de luta, cuidado, prazer, protesto e autodefesa. A montagem é propositalmente simples, para favorecer a leitura crítica: não se trata apenas de ensinar técnicas de combate, mas de recuperar memórias e reconhecer a história da luta feminina. Como diz a curadora Marie Moise, citando a filósofa Elsa Dorlin, a mostra propõe “desaprender a não lutar”.
A curadoria é assinada por Marie Moise, ao lado de Chiara Alessi e Giulia Siviero. O repertório reúne objetos que, muitas vezes, não existiam antes do ativismo: invenções nascidas para responder a problemas sociais persistentes, como a violência sexual. Entre as peças de maior impacto está a referência à vagina dentata — um artefato simbólico e material pensado por mulheres em contextos de guerra como forma de proteção face ao estupro, e que também denuncia como, em tempos de conflito, o corpo feminino é terreno de opressão sistemática.
Outros elementos evocam trajetórias transnacionais de luta. Os guarda-chuvas e a tinta remetem às suffragettes inglesas: o guarda-chuva deixou de ser mero acessório vitoriano para virar implemento de autodefesa e de ataque, usado para repelir investidas policiais; a tinta serviu para sabotar caixas postais da Royal Mail, gerando desordem logística como tática política. Essas ações renderam às sufragistas o rótulo de “violentas” — pergunta-se, com ironia histórica: se existisse, à época, um “decreto de segurança”, teria sido usado para conter esse ímpeto de luta?
Uma seção fascinante da exposição trata das bolsos — ou da histórica ausência deles nas roupas femininas. Longo tempo considerados prerrogativa masculina, os bolsos foram banidos ou ignorados em trajes femininos por motivos morais e estéticos: dizia-se que bolsas atrapalhariam a silhueta feminina ou que mãos próximas ao púbis seriam indecorosas. Essa exclusão se estende como metáfora dos limites impostos às mulheres na esfera pública e econômica. A curadora destaca um exemplo recente que ilustra a pertinência do tema: em 2024, uma menina de oito anos escreveu a uma rede de supermercados britânica, Sainsbury's, questionando por que as calças escolares femininas não tinham bolsos — e conseguiu a mudança.
Ao percorrer a mostra, fica claro que se constrói algo além da exposição: ergue-se uma ponte entre gerações que inventaram ferramentas de resistência e as novas gerações que continuam a reconstruir direitos. A apresentação convida o público a reconhecer como pequenas soluções técnicas, objetos cotidianos e práticas criativas foram (e são) alicerces na construção de direitos. Em uma cidade como Roma, onde as decisões políticas têm peso direto na vida de imigrantes, cidadãs e ítalo-descendentes, iniciativas assim funcionam como espelho e caixa de ferramentas: mostram o passado e oferecem instrumentos simbólicos para o presente.
A mostra permanece como um convite à reflexão: entender a política pela ponta dos objetos, ver nas invenções uma arquitetura de cidadania e lembrar que, muitas vezes, o peso da caneta — ou de uma pequena mudança num bolso — transforma relações de poder.

