Escândalo abala governo de Milei: chefe de gabinete Manuel Adorni investigado por gastos e viagens de luxo com verbas públicas
Chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni, investigado por gastos, viagens de luxo e compras imobiliárias suspeitas; investigação em andamento.
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Escândalo abala governo de Milei: chefe de gabinete Manuel Adorni investigado por gastos e viagens de luxo com verbas públicas
Por Marco Severini — Em mais um movimento de alta voltagem no tabuleiro político argentino, o chefe de gabinete do presidente Javier Milei, Manuel Adorni, encontra-se sob investigação por supostas despesas extravagantes e utilização indevida de recursos públicos. A apuração judicial, que avança com minúcia cartográfica, traça linhas que podem redesenhar os contornos do poder no gabinete do presidente.
As acusações centrais apontam para o financiamento de viagens de luxo com recursos de origem duvidosa, aquisições imobiliárias pagas em espécie e sem documentação fiscal, além de grandes despesas em reformas em propriedades atribuídas a Adorni. O caso teve início no dia 8 de março, quando um vídeo mostrou a esposa do chefe de gabinete viajando a Nova York a bordo do avião presidencial — prática explicitamente proibida pelo próprio presidente Milei. O episódio inicial, embora aparentemente administrativo, abriu caminho para revelações de maior gravidade.
Segundo os inquéritos, no período de cerca de dois anos e meio em que ocupou funções no Executivo, Adorni teria declarado apenas US$ 42.500 em economias, enquanto testemunhos e documentos reunidos pela acusação indicam despesas superiores a US$ 100 mil em pouco mais de um ano. Entre os supostos gastos, figuram viagens em família a Aruba e a Punta del Este, além da compra de um apartamento de aproximadamente 200 metros quadrados no bairro de Caballito, em Buenos Aires, adquirido em 2025 por US$ 230 mil.
O padrão financeiro observado pelas autoridades inclui transações efetuadas fora do circuito bancário — pagamentos em dinheiro vivo, sem recibos — e empréstimos privados formalizados por meio de intermediários próximos a Adorni. Em um caso, duas senhoras aposentadas teriam concedido um empréstimo correspondente a 87% do valor do apartamento. Em outro, dois agentes policiais — um deles aposentado — teriam emprestado US$ 100 mil, dos quais ainda restariam mais de US$ 70 mil a pagar. Parte desses recursos teria sido aplicada na compra de uma casa em condomínio fechado na periferia de Buenos Aires, avaliada em US$ 120 mil, e na contratação de reformas com gastos estimados em US$ 250 mil, alegadamente pagos em espécie e sem documentação fiscal.
Além das questões patrimoniais, a investigação apura eventuais casos de tráfico de influências envolvendo contratos entre a Radiodifusão Pública — sob supervisão do gabinete chefiado por Adorni — e a produtora de seu amigo Marcelo Grandio, bem como contratos entre empresas estatais e a consultoria +Be, vinculada à sua esposa. A soma desses elementos motivou indagações formais por parte do Ministério Público, que avalia, entre outras tipificações, o crime de enriquecimento ilícito.
Do ponto de vista estratégico, este episódio revela fragilidades nos alicerces administrativos e expõe tensões internas entre a retórica anticorrupção que impulsionou a chegada de Milei ao poder e a prática cotidiana do aparelho estatal. A imagem do braço direito que, anos antes, prometera com uma motosserra demolir privilégios está agora em risco — uma ironia que dificilmente passa despercebida aos observadores internacionais.
As investigações seguem em curso e podem desdobrar-se em pedidos formais de responsabilização judicial. No tabuleiro das relações de poder, cada peça movimentada — audiências, depósitos bancários, contratos públicos — desenha uma cartografia de risco para a estabilidade do governo. A próxima fase determinará se esses movimentos se resumem a desvios individuais ou se revelam uma malha mais ampla de interesses e práticas que exigirão respostas institucionais mais profundas.
Enquanto isso, o Palácio continua em vigilância ativa, consciente de que um escândalo de alta exposição tem potencial para alterar o equilíbrio político e a legitimidade do Executivo no curto e médio prazos. A tectônica do poder argentino volta a se ajustar, e os próximos lances serão decisivos.