AfD à beira do governo regional: a Alemanha enfrenta a queda do muro que isolava a extrema-direita
Saxônia-Anhalt pode entregar à AfD seu primeiro governo regional; risco de ruptura com barreiras que mantinham a extrema-direita fora do poder na Alemanha.
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AfD à beira do governo regional: a Alemanha enfrenta a queda do muro que isolava a extrema-direita
A Alemanha se aproxima de uma prova de resistência para os alicerces da sua ordem política: permanece em pé o muro que, desde 1945, manteve a extrema-direita fora dos governos regionais ou é apenas um vestígio prestes a desabar?
No domingo, a Saxônia-Anhalt pode conceder à AfD o seu primeiro governo regional. As sondagens colocam o partido acima de 40%, com uma vantagem de 15 a 20 pontos sobre a CDU. Não se trata mais de uma força de protesto que bate à porta; tem, nas mãos, a chave da entrada.
Se a AfD triunfar, ela romperá uma barreira de facto que, na Alemanha do pós-guerra, teve significado político e simbólico: evitar que a extrema-direita converta consenso eleitoral em poder executivo. Durante décadas houve uma regra não escrita entre a CDU e outros partidos democráticos para manter essa margem de contenção. Hoje, essa regra corre sério risco de ruir.
A dimensão do que está em jogo excede uma eleição regional típica. Um governo liderado pela AfD teria controle direto sobre escolas, forças policiais e a administração pública regional, além de um peso significativo no Bundesrat, a câmara dos Länder, de onde poderia condicionar decisões federais. Em termos de tectônica de poder, seria um movimento capaz de redesenhar fronteiras de influência que pensamos consolidadas.
Rotular a AfD apenas como "extrema-direita" é um atalho que pode ocultar a natureza mais profunda do desafio. O cerne do problema é o elo entre parcelas relevantes do partido e posturas — linguagens e práticas — que colidem frontalmente com os princípios da República Federal. Estamos diante de um nacionalismo exacerbado, de retórica identitária, de antieuropeísmo e de um populismo que vê o arcabouço institucional como uma anomalia a ser corrigida.
Esse diagnóstico não é mera retórica adversária. Em 2023, o serviço de inteligência interna, o Office for the Protection of the Constitution, classificou a seção da Saxônia-Anhalt como organização extremista; essa classificação foi estendida nacionalmente e contestada pelo partido em tribunal. Nos fatos, observam-se comportamentos e declarações que justificam inquietação: figuras como Björn Höcke — entre os líderes mais radicais — foram alvo de condenações; ao mesmo tempo, o candidato local, Ulrich Siegmund, adota um tom mais ameno, quase benigno. Mas trocar o figurino não altera necessariamente o projeto político subjacente.
Ao folhear o programa do partido emergem medidas como a chamada "remigração" (expulsão em massa de migrantes), o desmonte do direito de asilo e propostas de escolarização segregada, com corte de iniciativas de inclusão para pessoas com deficiência. Não se trata de simples conservadorismo; é um plano de transformação social que separa quem pertence plenamente à comunidade nacional daqueles que devem ser marginalizados — ecos que evocam fantasmas do passado.
Além do conteúdo programático, há um risco prático inquietante: a apropriação dos instrumentos do Estado — polícia, burocracia, serviços públicos — para normalizar e implementar uma agenda que redefine a cidadania. Nesse “movimento decisivo no tabuleiro”, o controle administrativo permite não apenas legislar, mas também remodelar a execução do Estado em níveis que transcendem as fronteiras regionais.
O efeito político será também simbólico. A entrada da AfD em um governo regional legítima, aos olhos de muitos, a sua governabilidade. É um deslocamento na cartografia política: o eixo de influência se desloca e abre precedentes para outras jurisdições. Para a democracia alemã, a escolha imediata em Saxônia-Anhalt é uma interrogação sobre a resiliência das instituições e sobre a capacidade dos partidos tradicionais de reagir sem ceder ao pânico, mas com estratégia e firmeza.
Do ponto de vista histórico, este é um teste sobre se conseguimos preservar os alicerces da República sem perder de vista que a política é também arte de longo prazo. Em tempos assim, a responsabilidade dos moderados e a vigilância cívica tornam-se as peças centrais de uma partida que se joga tanto nas urnas quanto no cotidiano das administrações públicas.
Por fim, a eleição em Saxônia-Anhalt não é um episodio isolado: é um movimento no tabuleiro europeu que exige respostas calibradas — políticas, jurídicas e culturais — para manter erguida a arquitetura democrática que levou gerações a edificar.

