Revelações: o encontro secreto em Budapeste e a estratégia do Mossad para promover Ahmadinejad pós-regime
Investigações apontam encontros secretos em Budapeste entre Ahmadinejad e o Mossad; plano para uma transição no Irã e disputa interna em Israel.
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Revelações: o encontro secreto em Budapeste e a estratégia do Mossad para promover Ahmadinejad pós-regime
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha as linhas invisíveis da diplomacia, investigações do New York Times e do Haaretz descrevem encontros clandestinos que teriam ocorrido em Budapeste entre 2024 e 2025, nos quais Mahmoud Ahmadinejad e o diretor do Mossad, David Barnea, teriam discutido cenários para o futuro político do Irã.
Segundo fontes israelenses e americanas ouvidas pelas reportagens, a operação nasceu do cálculo frio da inteligência: a crescente distância entre Ahmadinejad e a liderança clerical iraniana — interessada em barrar sua reeleição — transformou o ex-presidente, figura controversa e populista, em um potencial instrumento de transição caso a República Islâmica se fragmentasse.
Figura do cenário internacional entre 2005 e 2013, lembrada por discursos negacionistas sobre a Shoah, retórica hostil a Israel e pela dura repressão às manifestações de 2009, Ahmadinejad oferece um paradoxo digno de um tratado de segurança: um líder cuja coerência ideológica choca, mas cuja utilidade estratégica foi reavaliada pelo serviço secreto israelense.
As iniciativas clandestinas teriam usado como cobertura uma conferência sobre clima em Budapeste, financiamentos para viagens e estadias, e contatos diretos conduzidos por Barnea. Fontes relatam que o chefe do Mossad chegou a priorizar pessoalmente o dossiê, adiando consultas sobre a guerra em Gaza para acompanhar os movimentos envolvendo Ahmadinejad.
O plano, descrito nas investigações sob o apelido de "Operação Gato de Botas", previa uma sequência coordenada: ataques contra a cúpula do regime, um avanço de forças curdas no Noroeste iraniano e a eclosão de uma insurreição popular que abriria caminho a uma nova liderança — com Ahmadinejad como rosto público do pós-regime. Em Brasília da política internacional, foi um lance que buscava sacramentar uma vitória imediata sobre a ameaça nuclear e o eixo clerical.
Internamente, no entanto, o tabuleiro era instável. O chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, teria ordenado a suspensão da operação pouco antes do seu lançamento, diante de receios operacionais e políticos profundos. Já o então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teria tentado impor a continuidade, enfrentando resistências nos aparatos de segurança.
Esse episódio revela a dureza pragmática da Realpolitik: quando os fins geoestratégicos se mostram decisivos, a coerência ideológica torna-se opção negociável. A escolha de um ex-presidente marcado por repressões e nacionalismo religioso como peça de uma transição fomentada a partir de forças externas expõe os alicerces frágeis da diplomacia e os riscos do redimensionamento de poderes por vias encobertas.
Do ponto de vista estratégico, a proposta carregava riscos de longo prazo — legitimidade doméstica de um líder percebido como instrumento estrangeiro, possível radicalização das facções sobreviventes e efeito dominó na tectônica de poder regional. Em linguagem de xadrez, tratou-se de um movimento ambicioso no centro do tabuleiro: capaz de produzir um xeque decisivo, mas também de abrir linhas de ataque contra o autor da jogada.
À medida que as investigações e as revelações se consolidam, permanece a pergunta-chave para analistas de Estado: até que ponto os serviços de inteligência podem (ou devem) instrumentalizar figuras conhecidas por violações de direitos para objetivos considerados de segurança nacional? A resposta, nas cartas e corredores do poder, ainda depende da próxima jogada — e de quem controla o relógio no tabuleiro regional.