Arquivos de Epstein revelam menções a Bill Gates, mas sem provas de crimes

Arquivos de Epstein mencionam Bill Gates centenas de vezes, mas não há provas que confirmem as alegações contidas nas mensagens divulgadas.

Arquivos de Epstein revelam menções a Bill Gates, mas sem provas de crimes

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Arquivos de Epstein revelam menções a Bill Gates, mas sem provas de crimes

Por Marco Severini — À primeira leitura, os documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos parecem desenhar um rastro denso de menções ao fundador da Microsoft, Bill Gates. Milhões de arquivos ligados a Jeffrey Epstein foram divulgados nos últimos meses e o nome de Gates figura centenas de vezes em e-mails e anotações que relatam encontros, jantares e telefonemas entre o financista e o empreendedor de Seattle.

É preciso, contudo, separar com rigor a superfície espetacular das anotações do que pode ser comprovado em tribunal. Não existe, até o momento, qualquer acusação formal contra Gates decorrente desses documentos, nem evidência independente que confirme os episódios mais embaraçosos descritos nas rascunhos de mensagens atribuídas a Epstein.

Dois rascunhos de e-mail de 2013 — textos que, segundo os arquivos, o próprio Epstein teria redigido e guardado — atraíram maior atenção. No primeiro, o financista alega ter facilitado encontros extraconjugais para Gates e até ter providenciado medicamentos para ocultar infecções sexualmente transmissíveis contraídas, conforme o texto, durante "relações com jovens russas" e "encontros ilícitos com mulheres casadas". Nesse mesmo rascunho, aparece a menção à busca por Adderall, estimulante à base de anfetaminas, supostamente para desempenho em torneios de bridge.

No segundo rascunho, Epstein descreve uma súplica de Gates para apagar mensagens referentes a antibióticos que, segundo o texto, seriam administrados secretamente à então esposa Melinda, e cita também passagens com descrições explícitas sobre o corpo do bilionário. Importa sublinhar: não há prova de que esses e-mails tenham sido enviados a terceiros ou que reflitam fatos reais — podem ser esforços de difamação reservados na caixa de um homem em colapso.

Os advogados de Gates qualificaram as alegações como "delirantes e falsas", interpretando os documentos como expressão da frustração de Epstein por ter perdido acesso a ele e como uma tentativa de extorsão. Em audiência recente perante o Congresso, o fundador da Microsoft reconheceu ter cometido infidelidades conjugais e admitiu que Epstein tentou explorar tais episódios.

Em declarações públicas anteriores, Gates negou encontros sexuais com mulheres apresentadas por Epstein, afirmou ter estado apenas em um jantar com o financista, ter recusado idas à ilha associada a Epstein e não ter participado de encontros com mulheres lá. Os registros documentados entre os dois datam quase que exclusivamente de depois de 2008, ano em que Epstein firmou um acordo pelo qual cumpriu 18 meses por delitos ligados à prostituição de menores.

Esta matéria convoca o leitor a considerar o episódio como um movimento em um tabuleiro maior: as menções nos arquivos são peças sobre a mesa, mas carecem de prova que as transforme em um xeque mate jurídico. A publicação dos documentos é por si mesma um terremoto na tectônica de poder entre magnatas, autoridades e vítimas; contudo, os alicerces da acusação exigem evidências que apontem além das anotações privadas de um condenado.

Em síntese estratégica: há menções abundantes e preocupantes nos arquivos de Epstein, mas não há, até a presente data, elementos comprovados que convertam esses relatos em acusações formais contra Bill Gates. O episódio reforça o debate sobre responsabilidade, poder e os mecanismos de proteção e exposição na era das informações.