Betânia além do Jordão: um ponto de oração e tensão na busca pela paz

Local do Batismo de Jesus, Betânia além do Jordão ora pela paz enquanto enfrenta efeitos do conflito e mantém diálogo ecumênico.

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Betânia além do Jordão: um ponto de oração e tensão na busca pela paz

Betânia além do Jordão permanece um lugar onde a memória sagrada do Batismo de Jesus encontra, de forma inquietante, a realidade da geopolítica contemporânea. Em conversa com jornalistas e sacerdotes reunidos na Igreja latina do Batismo, o missionário Andres Nowakowski, do Instituto do Verbo Encarnado, descreveu com clareza diplomática o clima que se vive ali: o som das sirenes chegava sempre e, quando passaram os drones vindos do Irã em direção a Israel, 'o mosteiro tremia todo'. 'Não há paz ainda; procura-se, mas ainda não há', resumiu.

O pequeno curso d'água do rio Jordão traça a tênue fronteira com Israel, e a área, reconhecida como patrimônio mundial pela Unesco, é vigiada por forças militares por razões óbvias de segurança. É nesse frágil corredor entre o sagrado e o estratégico que se celebra diariamente a oração pela paz, inclusive em favor da paróquia de Gaza, administrada pelo mesmo instituto que cuida de Betânia.

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Nowakowski sublinha uma contradição que tem caráter de lesão nas estruturas básicas da convivência regional: 'Para nós aqui a vida, em certa medida, continua; mas do outro lado sabemos que não é tão fácil'. Os efeitos do conflito são palpáveis no fluxo de peregrinos: antes do 7 de outubro chegavam um ou dois grupos por dia; hoje passam a comunidade apenas um ou dois grupos por semana. É um indicador árido de como a tectônica de poder e a insegurança redesenham rotas de fé e turismo.

No mesmo sítio sagrado convivem, a poucos metros, a Igreja latina, uma igreja russa-ortodoxa e uma grego-ortodoxa. O diálogo ecumênico é constante, institucionalizado em reuniões bimestrais em que se discute a recepção dos peregrinos e se reza, em conjunto, um Salmo ou um Pai Nosso. 'O que nos une é a fé no batismo, uma riqueza muito importante. O diálogo e o ecumenismo para nós é muito importante', recorda Nowakowski, que também relata gestos simples de fraternidade, como o presente de uma garrafa de vinho ofertada por um padre ortodoxo na sua primeira estada.

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O olhar para o futuro é estratégico: há planejamento para 2030 e para as celebrações dos dois mil anos do Batismo de Jesus. A igreja ainda carece de alguns mosaicos e serviços, mas 'seremos prontos', garante o missionário — um desejo que soa como promessa em um tabuleiro onde cada movimento tem consequências internacionais.

Betânia além do Jordão é, assim, um enclave que sintetiza os alicerces frágeis da diplomacia religiosa: um lugar onde a liturgia e a cartografia se tocam, onde a oração se converte em um ato de resistência moral diante das rupturas do conflito. Como analista, vejo neste ponto menos uma peça isolada e mais um nó estratégico na arquitetura regional — cuja estabilização exigirá, necessariamente, movimentos de longo prazo, paciência táctica e uma inteligência do encontro intercomunitário.

Marco Severini — Espresso Italia

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