Board of Peace: fundo vazio paralisa projetos de reconstrução em Gaza apesar dos $17 bilhões prometidos

Fundo do Board of Peace para Gaza permanece vazio apesar dos US$17 bi prometidos; projetos de reconstrução ficam paralisados por falta de recursos.

Board of Peace: fundo vazio paralisa projetos de reconstrução em Gaza apesar dos $17 bilhões prometidos

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Board of Peace: fundo vazio paralisa projetos de reconstrução em Gaza apesar dos $17 bilhões prometidos

Por Marco Severini - Espresso Italia

O projeto emblemático do Board of Peace, idealizado como instrumento-âncora para a reconstrução de Gaza, encontra-se hoje em um impasse funcional e financeiro que revela fragilidades estruturais profundas. Relatórios do Financial Times confirmam aquilo que já estava no tabuleiro de observadores internacionais: o fundo oficial, gerido pela Banco Mundial, está praticamente vazio, sem receber os US$ 17 bilhões anunciados por doadores estatais.

Quatro meses após a grandiosa apresentação, quando o então presidente Donald Trump qualificou o Board como uma das organizações mais relevantes da cena internacional — ao ponto de insinuar uma possível substituição parcial das funções da ONU — a realidade mostrou-se menos generosa. Do montante prometido, chegou um volume irrisório: apenas contribuições pontuais dos próprios Estados Unidos e pequenas somas vindas de Marrocos (US$ 3 milhões) e dos Emirados Árabes Unidos (US$ 20 milhões). No total, algo em torno de US$ 23 milhões, longe do mínimo necessário para iniciar projetos de escala.

O próprio desenho do Conselho suscitava dúvidas: a exigência de uma cota de adesão de US$ 1 bilhão por Estado para tornar-se membro — concebida mais como um selo de prestígio e influência do que como um mecanismo prático de captação — criava um primeiro filtro elitista que enfraquecia a universalidade do esforço. Trump, por sua vez, havia prometido adicionar US$ 10 bilhões dos EUA, promessa que até o momento não se traduziu em depósitos efetivos no fundo.

Sem recursos, o Board deslizou para um limbo jurídico e político. A ausência de liquidez paralisa contratos, suspende cronogramas de obra e congela iniciativas de reabilitação urbana. Equipes técnicas e operadores humanitários são deixados em espera, enquanto a infraestrutura da Faixa permanece em estado de colapso. Parte das reduzidas verbas recebidas acabou sendo direcionada ao escritório do Alto Representante para Gaza, Nickolay Mladenov, para despesas administrativas e folha de pagamento — gesto que sublinha a incapacidade do mecanismo de atender a necessidades de reconstrução in loco.

O quadro geopolítico agravou ainda mais a situação. O plano de desarmamento gradual proposto pelo Board of Peace a Hamas foi rejeitado, removendo um dos pilares condicionais do mecanismo de apoio. Essa recusa tem sido utilizada, nas narrativas de Washington e Tel Aviv, como justificação para a manutenção das operações militares por parte das Forças de Defesa de Israel e para o controle continuado sobre partes estratégicas da Faixa de Gaza — um movimento que redesenha, na prática, fronteiras de facto e altera a distribuição de poder local.

Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: a proposta, concebida como instrumento de soft power americano para reposicionar a influência na região, encontra-se fragilizada pela tectônica de interesses divergentes, pelo crédito político em declínio e pela ausência de um pacto multilateral robusto. A incapacidade de materializar promessas financeiras mina a credibilidade do projeto e oferece vácuos de autoridade que atores regionais — e estatais — poderão explorar.

Se a reconstrução de Gaza é vital para a estabilidade regional, o caminho passa necessariamente pelo restabelecimento dos alicerces diplomáticos: compromissos financeiros concretos, mecanismos de governança transparentes e um engajamento multilateral que supere a lógica de iniciativas bilaterais isoladas. Sem isso, o Board, que aspirava a ser um novo pilar institucional, arrisca-se a tornar-se outra peça deslocada no tabuleiro geopolítico, cuja movimentação favorece mais a preservação de esferas de influência do que a reconstrução sustentável.

Em suma, o vazio do fundo não é apenas uma falha contábil: é um sintoma de uma estratégia incompleta, onde promessas amplas colidem com a realidade dos recursos e da aceitação política no terreno.