Board of Peace de Trump emperra: falta de fundos e estratégia ameaçam reconstrução em Gaza
Board of Peace de Trump empaca: falta de fundos e falhas operacionais impedem reconstrução e desarmamento em Gaza.
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Board of Peace de Trump emperra: falta de fundos e estratégia ameaçam reconstrução em Gaza
Por Marco Severini — O ambicioso Board of Peace concebido pela administração Trump para gerir a transição da trégua para a reconstrução em Gaza mostra-se, a poucos meses do lançamento, mais como um esboço no tabuleiro diplomático do que como um instrumento de governança operacional. Projetado para concentrar supervisão política, mobilizar recursos internacionais e garantir a criação de uma nova administração palestina na Faixa, o organismo enfrenta hoje um fosso entre a arquitetura anunciada em Washington e a realidade no terreno.
A Casa Branca apresentou o Board of Peace como peça central do plano em 20 pontos para pôr fim ao conflito em Gaza, atuando em conformidade com a resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU. Em teoria, seria um corpo de direção estratégica: orientar políticas, coordenar fundos e supervisionar a fase de transição. Na prática, porém, o instrumento foi paralisado por um problema grave e previsível no desenho geopolítico — a escassez de recursos.
Relatos de agências internacionais indicam que o Board recebeu menos de US$ 1 bilhão dos US$ 17 bilhões prometidos para governança e reconstrução. Esse hiato financeiro teria atrasado a entrada em Gaza do comitê palestino de tecnocratas previsto para substituir o controle civil do Hamas. Fontes diplomáticas qualificadas descrevem um mecanismo de facto estagnado. Washington, por sua vez, nega que a falta de fundos seja o único obstáculo, mas a insuficiência de desembolsos é um fato que pesa.
Ao lado da lacuna financeira, há fragilidades operacionais. O Civil-Military Coordination Centre, elemento-chave da estratégia americana nas proximidades da Faixa, mostrou-se incapaz de monitorar o cessar-fogo com eficácia e de facilitar ajuda humanitária em escala. Fontes indicam que a estrutura será fechada ou reconfigurada; a administração Trump afirma que se trata de uma reorganização. O sinal político, contudo, é cristalino: a fase dois do plano ainda não decolou.
O enviado do Board para Gaza, Nickolay Mladenov, declara-se "bastante otimista" quanto às negociações para o desarmamento do Hamas, reconhecendo, porém, a complexidade do processo e a necessidade de progressos rápidos. Sem um acordo claro sobre segurança, controle territorial e o papel das diferentes facções palestinas, toda a arquitetura de governança permanece suspensa — uma torre erguida sobre alicerces frágeis.
Enquanto aguardam a chegada de um capital político e financeiro substancial, os habitantes de Gaza improvisam: reutilizam escombros para restaurar vias e serviços essenciais. A ONU calcula cerca de 61 milhões de toneladas de detritos acumulados na Faixa, um dos maiores desafios de remoção pós‑conflito no plano global. Esse número traduz, em termos práticos, a distância entre a retórica diplomática e a capacidade de entrega no terreno.
No plano político e jurídico, o Board sempre suscitou controvérsia. Especialistas da ONU criticaram a resolução que sancionou sua criação, advertindo que o modelo pode comprometer direitos palestinos e concentrar poder externo sobre processos internos sensíveis. A tectônica de poder entre atores regionais e internacionais permanece fluida: o desenho de um novo arranjo administrativo em Gaza é um movimento no tabuleiro que exige mais do que declarações — exige fundos, legitimidade local e mecanismos de segurança robustos.
Da perspectiva estratégica, a situação atual revela um problema clássico de Realpolitik: sem recursos e consensos, mesmo a melhor peça no tabuleiro perde eficácia. A administração Trump apostou em um instrumento que deveria operar como ponte entre cessar-fogo e reconstrução; até agora, a ponte existe apenas no projeto. Resta ver se haverá um movimento decisivo que recomponha os alicerces frágeis da diplomacia e transforme compromissos em entregas reais para a população de Gaza.