Bruxelas avança para eliminar o petróleo russo; gás ainda mantém presença estratégica na UE

Bruxelas propõe eliminar o petróleo russo; gás ainda abastece a UE, com saída prevista até 2027 entre desafios logísticos e geopolíticos.

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Bruxelas avança para eliminar o petróleo russo; gás ainda mantém presença estratégica na UE

Por Marco Severini — Em um movimento calculado no tabuleiro energético europeu, a Comissão Europeia anunciou que, em 15 de abril, apresentará uma proposta para a eliminação gradual das importações finais de petróleo russo na União Europeia. Trata‑se de um passo destinado a completar a saída dos combustíveis fósseis de Moscou iniciada após a invasão da Ucrânia — uma mudança que reconfigura alicerces e corredores de influência no mapa energético europeu.

Os dados oficiais de Bruxelas confirmam uma queda pronunciada nas compras: o peso do petróleo russo nas importações da UE caiu de cerca de 27% no início de 2022 para aproximadamente 2% atualmente. Hoje apenas dois Estados‑membros continuam a contabilizar aquisições diretas de petróleo russo — Hungria e Eslováquia — o que evidencia a retração quase completa do mercado europeu de derivados de petróleo provenientes de Moscou.

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O veto europeu ao carvão russo já foi total e irreversível. Mais complexo é o panorama do gás russo, que persiste como elemento estratégico de pressão e dependência: antes do conflito, o gás da Rússia respondia por cerca de 45% das importações do bloco; esse percentual caiu para cerca de 13% em 2025, graças à diversificação de fornecedores e à redução do consumo.

No entanto, em termos absolutos, permanecem na ordem de 35 bilhões de metros cúbicos por ano de gás russo entrando no sistema energético europeu — um fluxo avaliado em cerca de 10 bilhões de euros ao câmbio e preços atuais. Essas entregas transitam tanto por gasodutos quanto na forma de GNL (gás natural liquefeito), e demonstram como restos tectônicos da dependência energética ainda moldam a diplomacia de energia.

Um dado de mercado destacado por analistas diz muito sobre a complexidade dessa transição: em fevereiro de 2026, os países da UE importaram 1,54 milhão de toneladas de GNL do projeto Yamal, com 21 navios cargueiros rumando a portos europeus — a primeira vez desde 2018 que a produção mensal do campo ártico foi integralmente absorvida pelo mercado europeu. Esse episódio sublinha que, mesmo em processo de afastamento, o fluxo comercial entre Rússia e Europa não desaparece instantaneamente.

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O quadro regulatório europeu, contudo, aponta para o fechamento definitivo dessa dependência. Com um regulamento adotado em janeiro, a União instituiu um cronograma de proibição gradual e permanente: o fim das importações de GNL russo previsto para 1º de janeiro de 2027 e o término do gás por gasoduto programado para 30 de setembro de 2027 — com possibilidade de extensão técnica até novembro caso surjam problemas logísticos nos estoques.

Essa virada tornou‑se possível pela ampliação das importações de GNL vindas de fornecedores alternativos — especialmente Estados Unidos, Noruega, Argélia e Azerbaijão — e por uma queda substancial da demanda interna: o consumo de gás na UE recuou mais de 19% entre 2021 e 2024. O objetivo declarado por Bruxelas é claro: eliminar as fornecimentos energéticos russos até 2027 e interromper os cerca de 10 bilhões de euros anuais que a União ainda destina a Moscou.

Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento de realinhamento geopolítico. A União, ao reduzir praticamente a zero as entradas de petróleo russo e ao estabelecer prazos para o fim do gás russo, busca recompor sua autonomia energética e minar instrumentos de influência que historicamente a Rússia deteve sobre partes do continente. No entanto, como em uma partida de xadrez em que se troca espaço por segurança, a transição exige coordenação, estoques robustos e alternativas logísticas que evitem vulnerabilidades durante o deslocamento dos fluxos.

Para países ainda dependentes, como Hungria e Eslováquia, o desafio será técnico e político: garantir abastecimento e preços estáveis enquanto os corredores de suprimento se redesenham. Para a União como um todo, a tarefa é traduzir decisões normativas em resiliência energética sustentável — um redesenho de fronteiras invisíveis no mapa da influência.

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