Rússia, drones e OTAN: Europa teme escalada; O que se sabe até agora
Segundo o jornal espanhol El Mundo, a inteligência americana teria alertado governos europeus sobre possíveis ataques russos com drones contra Itália, França e Espanha. O ministro italiano da Defesa diz que o alerta não foi confirmado. Em Moscou, o discurso sobre negociações convive com a continuidade das operações militares.
RESUMO ✦
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Rússia, drones e OTAN: Europa teme escalada; O que se sabe até agora
A guerra na Ucrânia voltou a colocar a segurança do território europeu no centro do debate nesta quinta-feira, 24 de setembro, depois de uma reportagem do jornal espanhol El Mundo afirmar que a Rússia estaria preparando possíveis ataques com drones contra Itália, França e Espanha.
A informação, atribuída pelo jornal a fontes ligadas aos serviços de inteligência dos Estados Unidos, provocou reações em Roma, Bruxelas e outras capitais europeias. O ministro italiano da Defesa, Guido Crosetto, porém, negou que exista confirmação oficial de um alerta operacional dirigido à Itália.
"O alerta não encontra nenhuma confirmação", afirmou Crosetto, acrescentando que, em um momento já marcado por elevada tensão, não seria necessário "colocar mais lenha na fogueira".
A reportagem do El Mundo descreve um possível cenário em que drones russos seriam lançados a partir de navios comerciais, escondidos em contêineres. O modelo mencionado é o Gerbera, drone de fabricação russa com autonomia reportada de até 600 quilômetros. As informações, no entanto, permanecem baseadas em fontes anônimas e não foram publicamente confirmadas pelo governo italiano.
Roma: Nenhum alerta operacional confirmado
A posição oficial italiana é, até o momento, de cautela.
Fontes qualificadas citadas pela ANSA afirmaram que o suposto alerta mencionado pelo El Mundo não teria chegado à Itália em nenhum nível operacional de inteligência, diplomático ou militar.
O presidente do COPASIR, Lorenzo Guerini, também adotou uma postura prudente. Segundo ele, trata-se inicialmente de uma reportagem jornalística que precisa ser verificada antes que suas informações sejam consideradas confirmadas.
Guerini pediu "calma e cautela" diante de uma situação que classificou como complexa e tensa. Ao mesmo tempo, afirmou que a Rússia vem desenvolvendo ações que ultrapassam a dimensão estritamente militar da guerra na Ucrânia, incluindo operações destinadas, segundo sua avaliação, a testar a capacidade de reação dos países da OTAN e influenciar a opinião pública europeia.
A diferença entre um alerta de inteligência reportado por um veículo de imprensa e uma ameaça confirmada pelas autoridades nacionais é central neste caso. Até o momento, a segunda situação não foi estabelecida publicamente.
Bruxelas reconhece aumento das ameaças híbridas
A Comissão Europeia também reagiu à notícia, mas sem confirmar a existência de um alerta específico da CIA contra Itália, França ou Espanha.
O porta-voz europeu para a Defesa, Thomas Regnier, disse que Bruxelas tomou conhecimento das informações e não se mostrou surpresa diante do contexto mais amplo de violações do espaço aéreo europeu e de ações híbridas atribuídas à Rússia.
Segundo Regnier, a Comissão Europeia não está afirmando ter recebido uma confirmação de que os ataques descritos pelo El Mundo estejam planejados. O que Bruxelas reconhece é a existência de uma série de incidentes e ameaças híbridas contra Estados-membros.
A Comissão vem defendendo iniciativas voltadas à defesa contra drones, ao reforço da defesa aérea e ao chamado escudo espacial como instrumentos para aumentar a capacidade de resposta dos países europeus.
A distinção é importante: Bruxelas reconhece a evolução das ameaças, mas não confirmou o suposto plano específico descrito pelo jornal espanhol.
O que diz Moscou
Enquanto cresce a preocupação europeia com possíveis operações russas fora da Ucrânia, o Kremlin insiste que Moscou continua aberta a negociações.
O discurso russo, porém, contém uma condição fundamental: o governo de Vladimir Putin rejeita a ideia de um simples cessar-fogo temporário que não seja acompanhado de um processo político destinado a produzir uma solução mais ampla.
O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, afirmou na ONU que a Rússia está pronta para negociar uma "paz justa e duradoura", mas que não pretende suspender suas operações militares durante as negociações.
No dia anterior, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, havia declarado que não existiam naquele momento as condições necessárias para iniciar negociações de paz com a Ucrânia, embora Moscou permanecesse aberta ao diálogo.
As declarações mostram a distância entre a disposição russa de falar em negociações e a ausência, até agora, de um acordo sobre as condições para iniciar um processo de paz.
Zelensky volta a responsabilizar Putin
Na Assembleia Geral das Nações Unidas, Volodymyr Zelensky adotou uma linguagem muito mais dura.
O presidente ucraniano chamou Vladimir Putin de "paciente zero" da disseminação da guerra e pediu que a comunidade internacional aumente a pressão sobre Moscou.
A declaração ocorreu em um momento em que Kiev continua sendo alvo de ataques russos. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira, a capital ucraniana voltou a sofrer ataques durante a madrugada, com vítimas e danos registrados.
Zelensky procura apresentar a guerra não apenas como um conflito territorial entre Rússia e Ucrânia, mas como um problema mais amplo de segurança internacional, especialmente diante dos episódios recentes envolvendo drones, espaço aéreo e infraestrutura europeia.
Tajani: "A Itália não está em guerra com a Rússia"
A posição italiana combina apoio à Ucrânia com uma tentativa de evitar uma escalada direta entre a OTAN e a Rússia.
O ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, afirmou no Conselho de Segurança da ONU que as crescentes ameaças híbridas russas representam um risco para a segurança europeia. Ao mesmo tempo, enfatizou: "A Itália não está em guerra com a Rússia" e defendeu que qualquer escalada seja evitada.
Em seu discurso na Assembleia Geral, Tajani também defendeu o fortalecimento da capacidade de ação das Nações Unidas e afirmou que a paz deve ser construída e defendida de forma contínua.
A mensagem italiana procura, assim, manter duas posições simultâneas: sustentar a segurança europeia diante das ações russas e evitar que incidentes ou operações híbridas sejam interpretados automaticamente como início de uma guerra direta entre Rússia e países da OTAN.
A tensão chega à fronteira polonesa
Os acontecimentos desta quinta-feira também tiveram impacto direto na fronteira entre Polônia e Ucrânia.
O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, afirmou que dois postos de passagem na fronteira foram evacuados temporariamente durante ataques russos contra o oeste da Ucrânia.
Tusk citou os postos de Dorohusk e Zosin e afirmou que a operação ocorreu enquanto a Ucrânia era novamente atacada nas proximidades da fronteira polonesa. Ele classificou a situação como mais um sinal da necessidade de preparação para as próximas semanas e meses.
Segundo informações divulgadas sobre o ataque, forças russas utilizaram drones e mísseis contra alvos ucranianos, enquanto as autoridades polonesas adotaram medidas preventivas na região fronteiriça.
O episódio não significa que a Polônia tenha sido atacada. O que ocorreu foi uma resposta preventiva das autoridades polonesas diante de ataques em território ucraniano próximos à fronteira.
Rutte pede calma
O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, também procurou reduzir o risco de interpretações alarmistas sobre uma possível guerra direta entre a Aliança e a Rússia.
Em declarações citadas nesta quinta-feira, Rutte afirmou que um ataque russo contra a OTAN é considerado altamente improvável, embora tenha defendido que os países aliados permaneçam atentos.
A avaliação ocorre em um contexto de crescente preocupação europeia com operações híbridas, violações de espaço aéreo e possíveis ações russas destinadas a testar a capacidade de reação da Aliança.
A questão, portanto, não é apenas a possibilidade de um ataque convencional. Governos europeus também estão acompanhando ações de sabotagem, operações de influência, drones e incidentes próximos a infraestruturas estratégicas.
O episódio envolvendo a reportagem do El Mundo ilustra uma das dificuldades centrais da atual guerra híbrida: separar uma informação de inteligência ainda não confirmada de uma ameaça operacional concreta.
A reportagem espanhola apresenta um cenário específico, atribuindo a fontes de inteligência dos EUA a informação de que a Rússia poderia utilizar drones lançados do mar contra alvos no sul da Europa.
Até o momento, porém, não há confirmação pública italiana de que um ataque esteja sendo preparado contra o território nacional. Crosetto negou a existência de confirmação, enquanto fontes citadas pela ANSA disseram que o suposto alerta não chegou a um nível operacional na Itália.
Isso não elimina a preocupação europeia com ameaças híbridas. Significa apenas que é necessário distinguir entre o risco geral reconhecido pelas autoridades europeias e a alegação específica de um ataque russo iminente contra Itália, França ou Espanha.
Uma guerra que ultrapassa as fronteiras da Ucrânia
Mais de quatro anos depois do início da invasão em larga escala da Ucrânia, a guerra continua concentrada militarmente no território ucraniano, mas seus efeitos sobre a segurança europeia são cada vez mais visíveis.
Os ataques contra a Ucrânia próximos às fronteiras da OTAN, os episódios envolvendo drones e espaço aéreo e as acusações de operações híbridas russas ampliaram a preocupação dos governos europeus.
Ao mesmo tempo, Moscou continua afirmando que está aberta a negociações, enquanto sustenta que um simples cessar-fogo não seria suficiente para resolver o conflito. Kiev, por sua vez, continua exigindo garantias de segurança e responsabilização russa.
O resultado é um cenário em que a diplomacia continua sendo discutida enquanto as operações militares prosseguem.
Por enquanto, a principal questão levantada nesta quinta-feira na Itália não é se um ataque russo está prestes a ocorrer — algo que as autoridades italianas não confirmam, mas até que ponto os países europeus devem se preparar para uma guerra que já produz efeitos muito além das linhas de frente ucranianas.

