China proíbe venda de apartamentos usados para 'enterros em casa' enquanto busca alternativas ecológicas

China proíbe venda de apartamentos para enterros em casa e incentiva sepulturas ecológicas diante de altos custos funerários e crise imobiliária.

China proíbe venda de apartamentos usados para 'enterros em casa' enquanto busca alternativas ecológicas

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China proíbe venda de apartamentos usados para 'enterros em casa' enquanto busca alternativas ecológicas

Por Marco Severini — Diante do aumento dos custos funerários e da crise do mercado imobiliário, uma prática inusitada se espalhou pela China: o enterro de entes queridos em apartamentos vazios nos arranha-céus. O fenômeno, descrito pelo Financial Times e confirmado por fontes oficiais, levou o governo de Pequim a adotar medidas restritivas para conter o que define como um risco à ordem pública e ao uso racional do solo urbano.

Nos últimos anos, famílias chinesas têm optado por enterrar em casa os falecidos, aproveitando unidades residenciais desocupadas em vez de pagar por um espaço tradicional no cemitério. A opção ganhou tração por dois vetores complementares: o rápido envelhecimento da população — com 11,3 milhões de óbitos em 2025, aumento sensível na última década — e a crise imobiliária que deixou muitos imóveis ociosos e atrativos do ponto de vista financeiro.

Um estudo da seguradora SunLife, de 2020, apontou que a média dos custos funerários na China era de aproximadamente 37.375 RMB (cerca de US$ 5.400), cifra que correspondeu a cerca de 45% do salário médio anual no país. Acresce a peculiaridade jurídica do mercado: os direitos de uso de imóveis residenciais são concedidos por 70 anos, ao passo que os lotes em cemitérios costumam ter contratos de apenas 20 anos — fato que tornou a alternativa residencial ainda mais pragmática para muitas famílias.

Em resposta, a legislação anunciada às vésperas do festival de Qingming, dedicado à limpeza e veneração das sepulturas, proíbe explicitamente que empresas e corretores comercializem propriedades como locais para conservar cinerários ou restos humanos. O pacote de medidas busca também promover práticas funerárias alternativas, as chamadas sepulturas ecológicas, como a dispersão de cinzas no mar, apresentadas pelas autoridades como mais econômicas e menos danosas ao limitado recurso territorial.

Apesar da norma, analistas do terreno antecipam que parte do comércio continuará a operar na clandestinidade, reflexo das pressões econômicas sobre famílias e do profundo simbolismo dos ritos funerários. Demógrafos chamam atenção para outro efeito possível e menos imediato: a erosão de ritos tradicionais pode alterar atitudes familiares fundamentais e, por tabela, contribuir para uma predisposição a ter menos filhos — um novo vetor na complexa tectônica demográfica chinesa.

Ao tratar o assunto, convém adotar uma leitura de estratégia estatal: o governo faz um movimento decisivo no tabuleiro para manter o controle sobre o uso do solo urbano e sobre as normas de convivência coletiva. Ao mesmo tempo, busca redesenhar os alicerces das práticas funerárias, incentivando soluções que aliviem pressões econômicas e ambientais. É uma jogada que mistura preocupação social, gestão de recursos e desejo de estabilizar um segmento sensível da política pública.

Em suma, a proibição de comercializar apartamentos como depósitos funerários é um remédio administrativo para um sintoma mais amplo — envelhecimento acelerado, custos crescentes e propriedades ociosas — e representa um teste sobre como o Estado e a sociedade renegociarão, sobre um tabuleiro em mutação, os ritos que conectam gerações.