CICV reforça atividades forenses em Gaza diante da destruição e da ausência de laboratórios
CICV apoia Gaza com equipamentos, treinamentos e mediação para manejo e identificação de restos humanos em meio à destruição das infraestruturas.
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CICV reforça atividades forenses em Gaza diante da destruição e da ausência de laboratórios
Por Marco Severini — Em um movimento que revela tanto a complexidade humanitária quanto os limites práticos da ação internacional, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR/CICV) tem apoiado as autoridades em Gaza na gestão dos restos humanos e na busca por pessoas desaparecidas. A iniciativa combina assistência logística, equipagem especializada e reforço de capacidades periciais num território marcado pela extensa destruição das infraestruturas médicas e humanitárias.
O doutor Hubbard, especialista em medicina forense do CICV em Gaza, descreve o papel da organização como multifacetado. Além de agir como intermediário neutro para facilitar a transferência de restos e de pessoas, o Comitê tem viabilizado o retorno de restos de cidadãos palestinos vindos de Israel e também colaborado no encaminhamento de prisioneiros/ostaggi israelenses desde Gaza para Israel, no âmbito do seu mandato humanitário.
Além da mediação, o CICV tem fornecido equipamentos essenciais para uma gestão digna das vítimas: sacos mortuários, dispositivos de proteção individual para equipes de resgate e material técnico para a documentação forense. Em termos de infraestrutura física, a organização ajudou a construir um cemitério em Deir al-Balah com capacidade para 1.400 sepulturas, destinado atualmente a acolher enterros temporários de restos não identificados, e contribuiu para a reabilitação do setor de medicina legal do hospital Al-Shifa.
Um alicerce crítico da ação está no fortalecimento de competências. Programas de formação promovidos pelo Comitê visam qualificar profissionais de medicina legal e socorristas em técnicas de investigação forense, recuperação correta de corpos, manejo de restos esqueléticos e documentação metódica de evidências, medidas indispensáveis para permitir futuras identificações.
As dificuldades no terreno, porém, são profundas. Hubbard aponta que a destruição de grande parte das infraestruturas complica significativamente o trabalho das equipes forenses e de proteção civil. O CICV tem inclusive financiado e providenciado o uso de maquinário pesado para recuperar restos humanos debaixo de escombros, equipamento que é escasso e muitas vezes de difícil mobilização em Gaza.
Um ponto estratégico e sensível é a capacidade de identificação. Atualmente, Gaza não dispõe de laboratórios aptos a realizar testes de DNA, tanto pela ausência de instalações quanto pela carência de equipamentos específicos. Hubbard ressalta, contudo, que a investigação não começa pelo DNA; começa com o correto resgate, registro e exame inicial dos restos. Estes passos processuais são a fundação sobre a qual identificações futuras, inclusive por testes genéticos, podem ser construídas — um verdadeiro movimento decisivo no tabuleiro que é a identificação de vítimas em zonas de conflito.
Do ponto de vista geopolítico e humanitário, a atuação do CICV em Gaza ilustra a tectônica de poder entre necessidades operacionais e limitações logísticas. A intervenção técnica e a mediação neutra representam tentativas de estabilizar alicerces frágeis da diplomacia humanitária, evitando que a ausência de infraestrutura se traduza numa perda permanente da memória das pessoas desaparecidas.
Em termos práticos, a prioridade continua sendo: recuperar com dignidade, documentar com rigor e capacitar profissionais locais para que, quando as circunstâncias permitirem, identificações definitivas sejam realizadas. É um trabalho de paciência estratégica, feito nos bastidores, com impacto direto sobre famílias e sobre a ordem humanitária regional.