Colônia recorde de abelhas subterrâneas: 5,56 milhões encontradas em cemitério de Ithaca
Cemitério de Ithaca abriga 5,56 milhões de abelhas subterrâneas; descoberta da Cornell destaca importância da conservação de solos urbanos.
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Colônia recorde de abelhas subterrâneas: 5,56 milhões encontradas em cemitério de Ithaca
Por trás do silêncio aparente do cemitério East Lawn, em Ithaca (Nova York), desenha-se um movimento decisivo no tabuleiro da biodiversidade urbana. Uma equipe da Cornell University, liderada pelo professor Bryan Danforth, revelou que sob o tapete gramado daquele terreno existe uma colônia de abelhas em escala até então inimaginável: aproximadamente 5,56 milhões de indivíduos distribuídos em cerca de 6.500 metros quadrados.
O achado, documentado em artigo publicado na revista Apidologie, altera a cartografia do entomológico e nos força a repensar a tectônica de poder entre espécies polinizadoras. Ao contrário da imagem comum de colmeias suspensas e de sociedades de milhares de operárias, a fauna norte-americana é dominada por espécies solitárias que nidificam no solo. Entre elas, sobressai a Andrena regularis, espécie presente naquele cemitério há mais de noventa anos.
Na primavera de 2023, os pesquisadores posicionaram armadilhas de emersão para monitorar a saída dos insetos durante períodos de acasalamento e forrageamento. A metodologia permitiu estimativas populacionais robustas, resultando no número surpreendente que coloca Ithaca como palco de uma das maiores agregações de api subterrâneas já registradas. Para efeito de comparação, uma colônia típica de abelhas melíferas contém entre 20.000 e 40.000 operárias por hectare — muito aquém da densidade observada em East Lawn.
O achado também supera recordes anteriores, que apontavam para cerca de 1,5 milhão de indivíduos em sítios comparáveis estudados três décadas atrás. Em termos práticos, tratou-se de um redesenho de fronteiras invisíveis na compreensão científica sobre quem, quando e onde sustenta a polinização nos ambientes urbanos.
Para Danforth, a descoberta é tanto um marco numérico quanto um alerta: cemitérios, gramados não cimentados e outros espaços verdes silenciosos funcionam como refúgio indisturbado para as abelhas solitárias. Essas áreas mantêm alicerces frágeis da diplomacia ecológica — nichos que, se perdidos, reduzirão drasticamente a capacidade de suporte das cidades à biodiversidade.
Além do valor estatístico, a presença massiva de Andrena regularis em Ithaca demonstra a importância de políticas de conservação de solos que preservem corredores e áreas de nidificação subterrânea. A ciência, por sua vez, amplia seu arsenal de medidas: mapas de habitat, monitoramento contínuo e integração entre planejamento urbano e ecologia são movimentos necessários para proteger esses polinizadores frequentemente ignorados.
Como analista que observa a tectônica das relações entre natureza e sociedade, enxergo nesta revelação um lembrete estratégico: a estabilidade dos serviços ecossistêmicos depende de espaços discretos e muitas vezes subestimados. O tabuleiro não é composto apenas por grandes peças visíveis — existem exércitos subterrâneos cuja ação sustenta a ordem. Preservar esses exércitos é tanto uma questão de ciência quanto de prudência geopolítica ambiental.
Marco Severini
Espresso Italia — Voz em geopolítica e estratégia internacional