Colóquios em Abu Dhabi: Kremlin vê 'espírito construtivo' mas admite que resta muito trabalho

Kremlin vê conversas em Abu Dhabi como construtivas, mas alerta que resta muito a fazer; ataques com drones aumentam a tensão entre Rússia e Ucrânia.

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Colóquios em Abu Dhabi: Kremlin vê 'espírito construtivo' mas admite que resta muito trabalho

Por Marco Severini — Em um movimento que altera delicadamente o tabuleiro diplomático, os colóquios trilaterais realizados em Abu Dhabi, mediadas pelos EUA, entre delegações da Rússia e da Ucrânia foram descritos pelo Kremlin como conduzidos em um "espírito construtivo", embora — segundo a sua porta-voz — ainda haja "muito trabalho a ser feito".

O encontro de dois dias, ocorrido sexta e sábado, representou o primeiro contato direto entre os negociadores de Moscou e Kiev em torno do plano promovido pelo presidente norte-americano Donald Trump para pôr fim a um conflito que se aproxima de quatro anos. Um funcionário dos EUA informou que as negociações trilaterais serão retomadas em 1º de fevereiro.

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Ao falar com jornalistas, Dmitri Peskov advertiu que seria equivocado esperar resultados substanciais de um primeiro ciclo de conversas. "Seria um erro aguardar resultados significativos dos contatos iniciais — mas o próprio fato de terem começado em um espírito construtivo pode ser considerado positivo. Ainda assim, há muito trabalho a ser feito", declarou o porta-voz do Kremlin, numa escolha de palavras que transpira cautela estratégica.

Volodymyr Zelensky também qualificou as conversas em Abu Dhabi como "muito discutidas" e enfatizou a importância do tom construtivo. Contudo, a dinâmica do diálogo foi marcada por uma tensão tangível: na véspera do segundo dia, ataques aéreos — combinando mísseis e drones russos — deixaram milhões sem energia elétrica sob temperaturas negativas, fato que Kiev atribuiu a uma tentativa de minar as negociações.

Na madrugada seguinte, segundo o Estado-Maior ucraniano, a Rússia lançou um ataque com 138 drones de longo alcance, dos quais 110 foram neutralizados pelas defesas aéreas ucranianas. Vinte e um destes veículos não interceptados atingiram onze localidades ucranianas não especificadas. Em paralelo, autoridades ucranianas relataram um ataque noturno a uma refinaria na região de Krasnodar, no sul da Rússia.

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O Ministério da Defesa de Moscou, por sua vez, informou ter abatido 40 drones ucranianos durante a noite, a maioria sobre território do sul russo. Esses relatos paralelos ilustram a natureza assimétrica e fragmentada dos atos militares que continuam a moldar a paisagem das negociações: enquanto a mesa busca construir pontes, os arsenais pressionam os alicerces frágeis da diplomacia.

Do ponto de vista estratégico, é preciso enxergar esses episódios como movimentos calculados — não apenas incidentes isolados. A simultaneidade entre o diálogo e as operações militares sugere uma tentativa de ambos os lados de preservar poder de barganha: a Rússia demonstra capacidade de coerção à distância; a Ucrânia faz notar sua resistência e capacidade de resposta. O desafio, portanto, não é apenas técnico — envolve confiança, garantias e sequenciamento operacional que permitam traduzir o "espírito construtivo" em compromissos verificáveis.

Os mediadores — em especial os EUA e o anfitrião Emirados Árabes Unidos — precisarão arquitetar mecanismos de monitoramento e etapas claramente escalonadas para que o processo não seja corroído por atos de força. Em termos geopolíticos, estamos diante de uma partida cujo próximo lance será decisivo: a retomada das negociações em 1º de fevereiro revelará se as peças no tabuleiro continuarão em movimentação cautelosa ou se a tectônica de poder retornará a uma velocidade que inviabilize o progresso.

Enquanto isso, a comunidade internacional observa com atenção, ciente de que passos incrementalistas — mesmo modestos — podem abrir vias para um redimensionamento das fronteiras invisíveis de influência na região.

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