Pulizia etnica 3.0: como Israel se transformou num Estado de transferência e expulsou o povo palestino

Análise: como políticas, organizações e violência sistemática transformaram Israel num Estado de transferência e expulsaram populações palestinas.

Pulizia etnica 3.0: como Israel se transformou num Estado de transferência e expulsou o povo palestino

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Pulizia etnica 3.0: como Israel se transformou num Estado de transferência e expulsou o povo palestino

Por Marco Severini — Espresso Italia

Nas últimas semanas a paisagem política e humana em Israel e nos territórios ocupados adquiriu contornos de uma tectônica de poder decisiva. Em Jerusalém, o bairro de Silwan tem sido progressivamente esvaziado: famílias removidas de residências onde viveram por décadas, com pretextos administrativos e jurídicos que soam arbitrários e insultuosos. Na Faixa de Gaza, centenas de milhares de deslocados foram amontoados em campos improvisados e inabitáveis; muitos não encontrarão jamais suas casas, reduzidas a escombros. Ao mesmo tempo, circulou, em nível de gabinete, a convocação do Conselho de Segurança Nacional para debater formas de “encorajar a emigração voluntária” dos habitantes de Gaza — frase que traduz, com frieza burocrática, um objetivo estratégico mais amplo.

Não se trata apenas de ações isoladas. Organizações e órgãos que variam entre agências estatais e entidades sem fins lucrativos — Himnuta, Elad, o Fundo Nacional Judaico, o referido Conselho de Segurança Nacional, as Forças de Defesa de Israel, a hevra kadisha (sociedade funerária sefardita) e a Administração Civil — estão convergindo em direção a um desígnio comum, definido por alguns analistas como "Limpeza Étnica 3.0". É um processo que se ancora em precedentes traumáticos: as remoções em massa de 1948 e as operações de 1967. Estamos diante da próxima fase de um projeto político que se consolida como pilar da hegemonia territorial.

A superfície desses acontecimentos muitas vezes é apresentada como o fruto de motivações espontâneas: colonos irrompendo em vindita pelo 7 de outubro, vandalismo periférico, excrescências extremistas. Contudo, ao se olhar o tabuleiro com lente geopolítica, percebe-se uma coreografia deliberada. A direita política israelense formulara, ao longo de décadas, um roteiro claro para modificar o espaço demográfico e jurídico. Enquanto a esquerda perdeu o rumo — paralisada por clichês e pela ferida aberta do assassinato de Yitzhak Rabin — a direita executa movimentos que redesenham fronteiras invisíveis.

Importa sublinhar uma distinção analítica: não nos serve reduzir a situação ao termo já conhecido de apartheid. Nesse diagnóstico existe verdade, mas a evolução descrita ultrapassa essa categoria. O modelo sul-africano do apartheid não tinha como finalidade última a expropriação completa do território dos seus habitantes nativos. O que se observa aqui é um mecanismo orientado para a transferência — uma política cujo objetivo prático é fazer com que as populações palestinas deixem de representar um componente permanente do mapa político-territorial. Em suma: Israel foi transformado, progressivamente, num Estado de transferência.

No concreto da Cisjordânia, escrevi nas últimas semanas sobre a violência sistemática promovida por colonos. Vila após vila, família após família, os residentes tentam preservar lares e terras até o limite das suas capacidades; quando a pressão se torna insuportável, partem. Do pastor que habita territórios ancestrais até o banquero que denuncia ter sido forçado a abandonar a villa em vilarejos prósperos, o padrão é o mesmo: intimidação, perda de meios de subsistência, decisões administrativas que selam o destino das propriedades. A escalada é metódica e sinaliza uma estratégia de longo prazo.

Como analista, observo nesse roteiro vários sinais que deveriam alarmar diplomatas e atores internacionais: a normalização de práticas expropriatórias, a conivência de instâncias oficiais e a erosão dos alicerces da coexistência. No tabuleiro da geopolítica regional, estes movimentos não são atos isolados, mas peças deslocadas para garantir vantagem geoestratégica e demográfica. Para quem se preocupa com a estabilidade e com a justiça internacional, a resposta não pode limitar‑se a declarações de praxe; exige uma arquitetura de intervenção diplomática que recupere princípios básicos de direito e contenha o redesenho de fronteiras humanas.

Fechar os olhos para a atual dinâmica é facilitar um movimento decisivo que, se consolidado, recria um mapa onde o povo palestino perde de vez a sua condição de presença permanente. A história nos ensina que as grandes transformações territoriais raramente nascem do acaso: são o resultado de estratégias calculadas, implementadas por múltiplos atores e por estados que reconfiguram, em silêncio e com instrumentos jurídicos e administrativos, a realidade sobre o terreno.

Resta à comunidade internacional, aos mediadores e às sociedades civis interpeladas a tarefa de intervir — não com retórica apenas, mas com medidas que recolocam limites aos impulsos de transferência e restituam, se possível, a dignidade básica das populações afetadas. Sem isso, o processo em curso continuará a assentar as suas bases, peça por peça, em um tabuleiro cujo xeque-mate será a exclusão definitiva de um povo de sua própria terra.