Por que a Coreia do Sul se tornou a seleção mais pop do Mundial 2026
Como a Hallyu transformou a Coreia do Sul na seleção mais pop do Mundial 2026, entre cultura global e estratégia esportiva.
RESUMO ✦
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Por que a Coreia do Sul se tornou a seleção mais pop do Mundial 2026
Por trás de cada grande campanha futebolística existe uma cartografia de imagem e poder. Em 2002 o mundo aprendeu a olhar para a Coreia do Sul pelo prisma do futebol: a coorganização com o Japão e a chegada improvável às semifinais transformaram uma seleção relativamente desconhecida num fenómeno global. As praças de Seul tomadas pelos Red Devils, o fervor incessante dos cânticos e a cor vermelha a dominar as ruas tornaram-se imagens icónicas, parte de um movimento cultural que ia muito além dos limites do estádio.
Para a memória italiana, aquele Mundial ficou marcado pelo árbitro Byron Moreno, pela expulsão de Francesco Totti, pelo golo anulado a Damiano Tommasi e pelo golden goal de Ahn Jung-hwan que eliminou a Itália nos oitavos. Mas no tabuleiro maior das percepções globais, a campanha da Coreia do Sul foi um movimento decisivo: sob a batuta de Guus Hiddink e com capitão e símbolo geracional Hong Myung-bo, o país assinou o melhor resultado de sempre de uma seleção asiática em Copas do Mundo.
Hoje, quase um quarto de século depois, a configuração desse soft power foi redesenhada. Não se trata apenas de golos ou táticas; trata-se de uma tectônica de poder cultural. A recepção recente a Son Heung-min e companhia em Guadalajara — com mariachi, selfies, bandeiras e centenas de fãs — é um mapa simbólico: o México transformado por algumas horas numa pequena capital coreana. Essa imagem explica por que a seleção sul-coreana chega ao Mundial de 2026 com um público global que já conhece o país por seus produtos culturais.
A chamada Hallyu, a «onda coreana», moldou em duas décadas uma presença mundial que hoje alimenta a narrativa em torno dos Taeguk Warriors. Dos BTS às Blackpink, de Squid Game a Parasite, da moda ao k-beauty e às gigantes tecnológicas, Seul entrou no imaginário contemporâneo com força e sofisticação. O futebol viaja hoje dentro dessa mesma onda: a seleção é, simultaneamente, produto esportivo e embaixadora cultural.
No centro dessa representação pública está Son Heung-min. Aos 33 anos, no seu quarto Mundial, Son permanece o jogador asiático mais reconhecível do planeta, um embaixador que ultrapassa as fronteiras do campo. Ao seu lado desponta uma nova geração: Lee Kang-in, criativo e forjado no futebol espanhol, simboliza a modernização técnica e tática do país. E entre os europeus que conhecem bem a Coreia, o nome de Kim Min-jae ressoa com força — o zagueiro que chegou ao Napoli em 2022 tornou-se peça-chave no scudetto conquistado sob Luciano Spalletti, assumindo um papel de pilar na narrativa italiana recente.
Como analista, vejo nesse fenômeno um redesenho de fronteiras invisíveis: a Coreia do Sul usou cultura e performance esportiva para construir alicerces firmes no tabuleiro internacional. Não é apenas «pop»: é estratégia. A seleção sul-coreana de 2026 circula hoje em mercados, mídias e praças de torcedores que, em 2002, não faziam parte do mesmo mapa. É o resultado de movimentos coordenados, onde futebol e soft power se alinham numa abertura de novas linhas de influência.
Num Mundial em que a política das imagens conta tanto quanto a política das táticas, a presença sul-coreana é um exercício de diplomacia pública. O desafio agora, para o treinador Hong Myung-bo e sua equipa, é converter essa popularidade em consistência competitiva — transformar o aplauso em progresso no campo, como em qualquer partida de xadrez onde a vantagem estratégica deve ser consolidada pelo movimento seguinte.