Cuba sob bloqueio energético: a sobrevivência passa pelo mercado negro e apagões constantes

Cuba enfrenta bloqueio energético: apagões, falta de combustível e remédios; a sobrevivência migra para o mercado negro e redes informais.

Cuba sob bloqueio energético: a sobrevivência passa pelo mercado negro e apagões constantes

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Cuba sob bloqueio energético: a sobrevivência passa pelo mercado negro e apagões constantes

Por Marco Severini, Espresso Italia

Nas ruas da capital e nas províncias de Cuba a narrativa é direta e inquestionável: "No hay nada. No hay comida, no hay corriente, no hay combustible". Em cada esquina, a evidência material confirma o diagnóstico — prateleiras vazias nas bodegas estatais, bairros mergulhados em longos apagões e postos de gasolina sem um fio de combustível. De Miramar a Alamar, de Cabo de San Antonio a Punta de Maisí, o refrão é o mesmo: falta o essencial.

Segundo a reportagem original, a situação se agravou no início do ano, quando, após um episódio relatado em 3 de janeiro em Caracas e a subsequente mudança nas rotas de fornecimento, foi imposto à ilha um verdadeiro bloqueio energético que se soma ao embargo em vigor desde 1962. As pressões e as ameaças diplomáticas aos poucos países que ainda mantinham comércio com Havana — com destaque para o México — teriam acabado por reduzir drasticamente as entregas de petróleo.

Antes de 2026, Venezuela e México enviavam conjuntamente até 40 mil barris por dia. Desde janeiro, entretanto, a presença naval estadunidense no Caribe tem monitorado navios e rotas, e o último carregamento de maior monta mencionado foi o russo do navio Anatoly Kolodkin, com cerca de 730 mil barris — volume insuficiente para as necessidades de uma população de aproximadamente onze milhões.

O resultado prático desse ajuste geopolítico é um cotidiano marcado por cortes de energia que se tornaram previsíveis: já foram registradas, desde o início do ano, três falhas significativas do Sistema Elétrico Nacional ("se cayó el SEN"). Em meio a esse escuro recorrente, cenas simbólicas se repetem: na Fábrica de Arte, quando o apagão desce mais uma vez, o rapper Etián Brabaje Mansi dirige-se aos jovens espetadores com uma frase que sintetiza a resistência cultural — "Apagam a corrente, mas jamais apagarão a luz". Fora dessa metáfora potente, porém, o problema institucional persiste: ninguém sabe quando a energia voltará, e à noite as ruas só se iluminam por faróis de carros antigos e alguns néons dos hotéis vazios.

Além da falta de eletricidade, faltam medicamentos e bens básicos. Relata-se que os estoques de remédios chegam em lotes espaçados, a cada 45 dias, e se esgotam rapidamente — o paracetamol some das prateleiras com rapidez. Hospitais funcionam com severas limitações: o doutor Martin Rodriguez, do Hospital Oncológico de Havana, descreve a situação como uma cadeia de dependências quebradas — sem combustível, pacientes não chegam; sem pessoal, as terapias intensivas e cirurgias ficam comprometidas.

O pouco combustível disponível é gerido com rigor pelo governo e destinado prioritariamente às termelétricas e a serviços estatais, incluindo uma cota reservada a táxis oficiais destinados a turistas — 20 litros por dia, segundo relatos. Para a população comum, a alternativa é recorrer ao mercado negro, onde o preço do combustível e dos gêneros básicos sobe a perder de vista e onde a sobrevivência se negocia em espécie e favores.

Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento que reconfigura a tectônica de poder no Caribe: a combinação de sanções, bloqueios e vigilância naval redesenha fronteiras invisíveis de influência e expõe os frágeis alicerces da diplomacia regional. O impacto humanitário é imediato, mas também é político — a gestão do racionamento e do combustível torna-se instrumento de governação e de manutenção da ordem em um tabuleiro geopolítico onde cada movimento tem custo social.

Em cidades e bairros, a economia paralela se expande: mercados informais, trocas diretas e redes de solidariedade surgem para preencher vazios institucionais. Essa economia subterrânea é, paradoxalmente, tanto expressão da resiliência civil quanto sinal da falência das cadeias formais de abastecimento.

As próximas jogadas do conjunto de atores — Havana, Caracas, Moscou, México e Washington — determinarão se este será apenas um período de aperto temporário ou um redesenho duradouro da posição de Cuba na região. Para o observador estratégico, a ilha tornou-se agora um peão exposto num final de partida em que as peças maiores testam limites e sondam reações.

Enquanto isso, no cotidiano, a sobrevivência passa por pequenas decisões: conseguir um comprimido, um litro de gasolina, ou garantir que um gerador funcione o suficiente para manter vivo um equipamento hospitalar. No escuro, a resistência cultural persiste; na luz do dia, o desafio é substantivo e imediato.

Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional, colunista do Espresso Italia.