Cuba sem combustíveis e sob apagões: encontro da CIA em Havana e acusações de ‘ricatto’

Cuba esgota reservas de combustível, enfrenta apagões e protestos; CIA envia John Ratcliffe a Havana entre ofertas de ajuda condicionada e acusações de 'ricatto'.

Cuba sem combustíveis e sob apagões: encontro da CIA em Havana e acusações de ‘ricatto’

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Cuba sem combustíveis e sob apagões: encontro da CIA em Havana e acusações de ‘ricatto’

Cuba anunciou que esgotou todas as reservas de combustível do país, mergulhando vastas áreas da ilha em cortes de energia que chegam a 22 horas por dia. A crise energética precipitou protestos em diversas cidades, manifestações que em alguns casos assumiram tom antiamericano. No centro desta tensão está um novo contato entre Washington e Havana: o diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou à capital cubana para encontros com autoridades locais, numa tentativa declarada de reabrir canais de diálogo.

O quadro descrito pelo governo cubano é grave. O ministro da Energia, Vicente de la O Levy, qualificou a situação da rede elétrica como “crítica”, afirmando que “não temos absolutamente nada: nem petróleo, nem combustível, nem diesel”. Segundo as autoridades, a única fonte energética doméstica ainda disponível provém do gás extraído de poços nacionais, insuficiente para sustentar os serviços essenciais.

Em consequência, registram‑se bloqueios e manifestações espontâneas na capital — desde barricadas improvisadas até os tradicionais cacerolazos, nos quais os cidadãos batem panelas para exigir soluções imediatas. A resposta oficial aponta para um agravamento provocado por sanções recentes atribuídas à administração Trump, que teriam mirado setores energéticos e financeiros e intimidado países fornecedores de combustível para a ilha.

Nos bastidores da crise energética, o governo comunista tem acelerado investimentos em energia solar. Entre 2024 e 2025, a capacidade fotovoltaica instalada saltou de pouco mais de 200 megawatts para quase 1.300 megawatts — um avanço relevante, mas insuficiente diante do estado deteriorado da infraestrutura da rede elétrica. Enquanto os painéis aumentam a produção, a malha de transmissão e distribuição permanece obsoleta, incapaz de absorver e distribuir o excedente, razão pela qual o fotovoltaico ainda não substitui os combustíveis fósseis essenciais ao funcionamento do país.

Num movimento de alto simbolismo geopolítico, a administração dos Estados Unidos ofereceu 100 milhões de dólares em ajuda humanitária, proposta condicionada, contudo, a “reformas significativas do sistema comunista”. Havana interpretou essa oferta como uma tentativa de imposição política e foi categórica: o levantamento do embargo é condição sine qua non, já que Cuba — segundo repetiu aos interlocutores — “não constitui uma ameaça à segurança dos Estados Unidos”. A discreta visita de Ratcliffe foi, para o governo cubano, mais um episódio de uma estratégia que beira o ricatto, oferecendo assistência em troca de mudanças de regime.

Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento de dupla finalidade. Para Washington, reabrir canais com Havana permite reduzir riscos de instabilidade humanitária que possam transbordar para o hemisfério; para Havana, a negociação é também uma tentativa de preservar soberania e evitar que a dependência de ajuda se converta em um mecanismo de coação. No tabuleiro, cada lance recalibra alicerces frágeis: os investimentos solares representam um avanço tático, mas a tectônica de poder — sanções, oferta de ajuda condicionada e contatos de inteligência — redesenha fronteiras invisíveis da influência.

Resta a pergunta estratégica: até que ponto a ilha pode resistir a um cerco prolongado de recursos críticos sem reformas estruturais que, paradoxalmente, Washington condiciona? E até que ponto os fornecedores internacionais, pressionados por restrições externas, poderão escolher permanecer no jogo? A resposta determinará se este será um episódio de sobrevivência técnica ou o prelúdio de um redesenho maior do equilíbrio político na região.

Marco Severini - Espresso Italia