Depoimento de Taffarel no processo revela Maradona «inchado, à cama e resignado» nos dias que antecederam a morte

Depoimento de Nicolas Taffarel diz que Maradona esteve inchado, à cama e resignado dias antes da morte; 7 profissionais respondem por possível negligência.

Depoimento de Taffarel no processo revela Maradona «inchado, à cama e resignado» nos dias que antecederam a morte

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Depoimento de Taffarel no processo revela Maradona «inchado, à cama e resignado» nos dias que antecederam a morte

Por Marco Severini — Em nova etapa do processo sobre a morte de Diego Armando Maradona, o depoimento do massagista Nicolas Taffarel trouxe ao tribunal um retrato clínico e humano que reforça as questões centrais da acusação: um quadro de saúde deteriorado, sinais externos de edema e uma atitude de desistência por parte do ícone do futebol nas jornadas finais de vida.

Em audiência, Taffarel afirmou que, nos dias imediatamente anteriores ao óbito, Maradona permaneceu continuamente à cama, com recusa a se alimentar, aversão à higiene pessoal e notória incapacidade de se levantar. O massagista descreveu o paciente como «gonfio», com inchaço visível também nas pernas — indícios que, na avaliação de quem acompanhava rotineiramente o ex-capitão da Argentina, denotavam um comprometimento físico grave.

Segundo o depoente, ele informou repetidamente a equipes médicas sobre esses sinais, sem, porém, constatar uma resposta efetiva ou uma intervenção imediata que alterasse a evolução do quadro. Testemunhas e documentos exibidos em juízo registram que profissionais teriam pedido a Taffarel para não alarmar, argumentando que os sintomas eram passageiros. Essa dissociação entre percepção prática e orientação médica constitui hoje um dos vetores da acusação de possível negligência médica.

O relato ganhou contornos dramáticos ao recordar a tarde de 24 de novembro de 2020, véspera da morte. Taffarel relatou ter tentado persuadir Maradona a levantar-se para beber mate; a resposta do ex-jogador foi lacônica e definitiva: «ya esta — nada, chega». A ambiguidade da expressão espanhola, que pode traduzir tanto «está tudo bem» quanto «acabou», foi destacada em tribunal como elemento interpretativo sensível: poderia indicar aceitação final ou sinalizar um desfecho iminente.

A briga processual, desde meados de abril na Argentina, envolve sete profissionais de saúde — médicos e paramédicos — acusados de conduta que pode ter influenciado no desfecho fatal. Os réus negam responsabilização e sustentam, em suas estratégias de defesa, que cada qual atuou dentro de uma especialidade técnica delimitada, sem responsabilidade direta sobre as causas últimas que levaram ao óbito. Caso condenados, a pena em tese pode chegar a 25 anos de prisão.

O histórico clínico oficial aponta que Maradona faleceu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, em seu leito. A causa apontada foi insuficiência cardíaca e edema pulmonar agudo, quadro que ocorreu cerca de duas semanas após uma intervenção cirúrgica. Em sessões recentes do processo, foi exibida imagem do corpo com abdome visivelmente distendido, além de menções a relatos periciais que descrevem sofrimento sem a devida assistência nas horas finais.

Do ponto de vista geopolítico e simbólico, o caso transborda a arena técnica: trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da responsabilidade institucional e da confiança pública sobre as instituições médicas. A acusação, ao montar sua estratégia, opera como um arquiteto que busca demonstrar falhas nos alicerces do cuidado; a defesa, por sua vez, tenta fraturar o tabuleiro em peças isoladas para eximir cada ator.

Enquanto o processo avança, as audiências expõem não apenas a trajetória clínica de um mito do esporte, mas também a tectônica de poder entre saberes científicos, deveres éticos e expectativas sociais. Em última instância, o julgamento testará se houve, de fato, uma cadeia de omissões capaz de alterar o desfecho que surpreendeu o mundo do futebol e que continua reverberando nas instituições responsáveis pelo cuidado de pacientes sob risco extremo.