Giuliano Di Bernardo: O império americano é um gigante de pernas de barro — a Itália não pode ser espectadora
Di Bernardo: o império americano é um gigante de pernas de barro; Itália não pode ser espectadora perante a escalada no Oriente Médio.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Giuliano Di Bernardo: O império americano é um gigante de pernas de barro — a Itália não pode ser espectadora
Por Marco Severini — 06 de maio de 2026
Em diálogo com Giuliano Di Bernardo, procuramos dissecar a atual tessitura da ordem mundial e as consequências estratégicas da escalada no Oriente Médio. Di Bernardo oferece uma leitura severa e precise, digna de um tabuleiro de xadrez em que cada peça move tectonicamente as relações entre potências.
Pergunta 1 — O que é hoje o império americano?
Di Bernardo: Devemos avaliar o império americano para além das figuras políticas temporárias — Trump, Rubio e demais atores. Hoje, os Estados Unidos se apresentam como um gigante de pernas de barro, suscetível a ruir sob pressões adversas. Desde o fim da Guerra Fria, presidentes sucessivos recusaram pedidos israelenses de atacar o Irã para destruí‑lo; já Donald Trump, agindo com alinhamento incomum aos interesses de Tel Aviv, aceitou tal rota e iniciou uma guerra por procuração em favor de Israel.
Essa guerra contra o Irã, juridicamente indefensável segundo o direito internacional, expõe o jogo de forças reais. Uma escalada que envolva potências como China e Rússia não beneficiaria os EUA; ao contrário, já se observam perdas militares, políticas e de credibilidade. Se a conflitualidade prosseguir, poderá significar o declínio político de Trump e do Partido Republicano, além de desencadear uma crise social e econômica severa nos Estados Unidos. A Europa, por sua vez, sairia profundamente abalada.
Pergunta 2 — A quem serve essa guerra?
Di Bernardo: Serve sobretudo a interesses israelenses que, ao vislumbrar o aniquilamento do Irã, perseguem a realização de um projeto maximalista — a chamada Grande Israel — inspirado em leituras teológicas que reinterpretam a geografia bíblica. Essa esperança caminha por vias que transcendem a mera geopolítica e se enraízam em motivações teológicas, incluindo concepções apocalípticas como o Armagedom, que poderiam, em última instância, precipitar uma conflagração global. É uma lógica que beira a insanidade estratégica.
Pergunta 3 — Se houver catástrofe, isso recairá sobre os judeus?
Di Bernardo: Não. É essencial distinguir entre judaísmo e sionismo. Os judeus, em especial as comunidades civis, são frequentemente as principais vítimas das escolhas belicistas do Estado de Israel. Atribuir culpa coletiva aos judeus é um erro moral e estratégico. O que está em jogo é o projeto político‑religioso que alguns setores do sionismo promovem, e suas consequências para a estabilidade regional e global.
Em síntese, assistimos a um movimento de redesenho de fronteiras invisíveis e redes de influência que podem alterar alicerces frágeis da diplomacia global. Para países como a Itália, permanecer como espectador não é uma opção prudente: é necessário um posicionamento responsável que privilegie a preservação da estabilidade europeia e a mitigação de uma possível escalada maior.
Esta é uma advertência estratégica: quando as grandes potências jogam suas peças com motivação mista — realpolitik e motivações ideológicas —, o tabuleiro pode mudar de maneira irreversível. A tarefa dos estados moderados é atuar como geradores de equilíbrio, evitando que a tectônica de poder conduza o planeta a um jogo de soma zero.
Palavras‑chave em destaque: império americano, guerra contra o Irã, Israel, sionismo, Donald Trump, Partido Republicano, Europa, Itália.