Doha: avanços cautelosos nos diálogos EUA–Irã, mas veto de Ghalibaf às inspeções em Fordow, Natanz e Isfahan permanece

Diálogos EUA–Irã em Doha avançam, mas Ghalibaf veta inspeções da AIEA em Fordow, Natanz e Isfahan; desbloqueio de $3 bilhões em pauta.

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Doha: avanços cautelosos nos diálogos EUA–Irã, mas veto de Ghalibaf às inspeções em Fordow, Natanz e Isfahan permanece

Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance calculado no tabuleiro de poder, emergem sinais de progresso contido nos diálogos indiretos entre EUA e Irã realizados em Doha. Ainda assim, o ponto nodal do processo — as verificações sobre o programa nuclear iraniano — continua bloqueado pela recusa explícita de Teerã em autorizar inspeções em locais atingidos por ataques: Fordow, Natanz e Isfahan.

O gabinete do Presidente Trump descreveu o encontro como "ottimo", e declarou que a denuclearização estaria progredindo, bem como um acordo preliminar para o desbloqueio de 3 bilhões de dólares em ativos iranianos congelados. Fontes oficiais do Catar, representadas pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Majed Al Ansari, reportaram "progressos positivos" durante as conversações indiretas hospedadas em Doha.

Segundo Al Ansari, um novo ciclo de negociações foi agendado para após os funerais do ex-líder supremo Ali Khamenei — cerimônias que, de acordo com relatos provenientes de Teerã, Mashhad, Qom e do Iraque, incluirão uma série de ritos públicos, cortejos e medidas de segurança excepcionais, em razão do assassinato de Khamenei pelos bombardeios de 28 de fevereiro de 2026, atribuídos a operações americano-israelenses.

No terreno sensível da fiscalização internacional, entretanto, a trégua verbal cede lugar à rigidez estratégica. O chefe da delegação iraniana, Mohammad Bagher Ghalibaf, que também preside o Parlamento, reafirmou em rede estatal que é inverídico que Teerã tenha concedido permissão à AIEA para inspecionar os complexos de Fordow, Natanz e Isfahan. Em declarações retransmitidas pela emissora estatal IRIB e relatadas por Al Jazeera, Ghalibaf afirmou que os inspetores da AIEA "não têm o direito" de examinar instalações que sofreram ataques.

Essa negativa configura-se como um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: ao recusar o acesso a sítios danificados, Teerã preserva alicerces frágeis da sua narrativa de soberania e segurança, ao passo que a comunidade internacional vê comprometida a confiança nas garantias de transparência nuclear.

Adicionalmente, fontes informadas sugerem que, em caso de colapso das conversações — que incluem também o epicentro da tensão no estreito de Ormuz — o governo dos EUA avaliou a possibilidade de retomar operações militares em larga escala contra o Irã. Essa hipótese, ainda que remota, ressuscita a tectônica de poder na região e sublinha o caráter dual do momento: diplomacia e dissuasão trançadas num mesmo desenho estratégico.

Em suma, o canal diplomático permanece aberto, porém frágil. O desenrolar dos próximos encontros, marcados em torno dos funerais de Khamenei, será decisivo para saber se a mesa de negociações amadurecerá em garantias verificáveis ou se o impasse sobre as inspeções e os sítios nucleares atacados continuará a redesenhar fronteiras invisíveis de influência no Oriente Médio.