Estudo aponta Telegram como polo de redistribuição de milhares de fotos e vídeos íntimos de mulheres na Itália e Espanha
Estudo da AI Forensics revela troca de 80 mil arquivos íntimos no Telegram entre Itália e Espanha; ONG pede regras mais rígidas sob o DSA.
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Estudo aponta Telegram como polo de redistribuição de milhares de fotos e vídeos íntimos de mulheres na Itália e Espanha
Por Marco Severini — Um estudo recente da ONG AI Forensics revelou um movimento preocupante no tabuleiro digital: dezenas de milhares de arquivos — fotos, vídeos e áudios — de mulheres, em muitos casos compartilhados sem consentimento, foram trocados em grupos e canais do Telegram na Itália e na Espanha. A investigação identificou quase 25.000 usuários ativos envolvidos na circulação de conteúdo e mapeou mais de 80.000 arquivos ao longo de 16 canais monitorados por um período de seis semanas.
Entre os arquivos catalogados, muitos eram explicitamente sexuais; alguns possuíam origem em outras plataformas, como TikTok, Instagram e Snapchat, e havia registros de material gerado por inteligência artificial. Alarmantemente, o relatório também aponta para a presença de imagens potencialmente envolvendo adolescentes, além de práticas correlatas — doxxing (divulgação de dados pessoais), assédio, incitação ao estupro e distribuição de material pedófilo.
O padrão descrito pelos pesquisadores configura o Telegram como um verdadeiro hub de redistribuição: conteúdos vazados, extraídos ou manipulados em outras redes são agregados, arquivados e redistribuídos em canais que, por vezes, operam com acesso pago. A ONG documenta que vários grupos foram removidos pela própria plataforma, apenas para ressurgirem algumas horas depois com os mesmos nomes, evidenciando mecanismos de moderação que, segundo os autores, se mostram insuficientes.
Os elementos estruturais do serviço — a combinação entre a encriptação ponta a ponta em determinados modos, contas pseudônimas e capacidades de difusão em larga escala — criam assim um terreno fértil para abusos. Em linguagem de estratégia, trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis: funcionalidades projetadas para proteger privacidade podem, na prática, erigir alicerces frágeis para a impunidade.
Na recomendação política mais direta, a ONG sugere que o Telegram seja incluído na lista de plataformas de grande porte prevista pelo Regulamento Europeu sobre os Serviços Digitais (DSA), o que impondo obrigações de supervisão mais rigorosa poderia mitigar a persistência desses canais.
Em resposta à investigação, a empresa declarou à AFP que seus sistemas de moderação são eficazes e que a plataforma proíbe a divulgação de conteúdo íntimo não consensual, incluindo deepfakes pornográficos, embora admita a complexidade de moderar esse tipo de material. Vale lembrar que, em agosto de 2024, o fundador Pavel Durov enfrentou uma acusação judicial na França por não ter atuado de forma mais contundente contra a difusão de conteúdos criminosos.
Do ponto de vista de segurança e governança digital, o caso ilumina uma tensão central: como equilibrar proteções legítimas de privacidade com a responsabilidade de impedir que essas mesmas salvaguardas sirvam de cobertura para redes de abuso? A resposta demandará medidas técnicas, jurídicas e cooperativas entre plataformas e autoridades — um movimento decisivo no tabuleiro regulatório que definirá a tectônica de poder dos espaços digitais nos próximos anos.
Assinado,
Marco Severini — Espresso Italia