EUA e Arábia Saudita assinam acordo nuclear '123' e abrem porta ao enriquecimento de urânio
EUA e Arábia Saudita assinam acordo 123 que pode permitir enriquecimento de urânio; cresce preocupação com proliferação nuclear no Oriente Médio.
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EUA e Arábia Saudita assinam acordo nuclear '123' e abrem porta ao enriquecimento de urânio
Por Marco Severini — Em um movimento calculado no tabuleiro da geopolítica, os Estados Unidos e a Arábia Saudita formalizaram um acordo de cooperação nuclear civil — o chamado acordo "123" — que pode abrir caminho para instalações de arricchimento de urânio em território saudita. A assinatura, realizada pelo secretário de Energia americano Chris Wright e pelo ministro saudita da Energia Abdulaziz bin Salman, representa um redesenho de fronteiras invisíveis na tectônica de poder do Oriente Médio.
O pacto, cuja vigência prevista é de trinta anos, terá ainda de ser submetido ao Congresso dos EUA para ratificação. Segundo comunicado do Departamento de Energia norte-americano, o acordo confere amplo acesso a empresas estadunidenses ao programa nuclear saudita, fortalecendo cadeias industriais e consolidando a vantagem competitiva dos EUA no setor de tecnologias nucleares civis. Na prática, o texto tende a excluir concorrentes como Rússia e China, uma leitura estratégica que visa isolar Moscou e Pequim do palco energético saudita.
O plano delineado prevê, em primeiro lugar, o desenvolvimento de um programa de energia nuclear civil. Após a realização de um estudo de viabilidade, estará prevista a possibilidade de iniciar atividades de enriquecimento de urânio, caso justificadas. Aqui reside a maior preocupação: a tecnologia de enriquecimento tem caráter dual use — útil para produzir combustível de reatores, mas passível de escalonamento a níveis que permitam gerar material físsil para fins militares.
Historicamente, os EUA tentaram conter parceiros de adquirir capacidade autônoma de enriquecimento. A comparação recorrente é com os Emirados Árabes Unidos, que em 2009 firmaram um acordo com Washington contendo salvaguardas mais rígidas quanto ao enriquecimento. O novo pacto com Riad, segundo fontes, não inclui a condição que o governo Biden havia exigido — a normalização de relações entre a Arábia Saudita e Israel — cláusula esta que ficou de fora do texto final promovido pela administração anterior.
O anúncio surpreendeu Jerusalém e intensificou a pressão sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que se vê cada vez mais marginalizado nas manobras de longa distância projetadas desde Washington. Ao mesmo tempo, persiste a prioridade declarada pelos EUA de conter a ampliação de capacidades nucleares potencialmente militares pelo Irã, mas a abertura a Riad sinaliza uma reorientação pragmática: consolidar influência americana sobre tecnologias sensíveis, evitando que rivais estratégicos capitalizem a demanda saudita.
Do ponto de vista da estabilidade regional, o acordo instala alicerces frágeis na diplomacia: oferece benefícios econômicos e industriais convincentes, mas cria riscos reais de proliferação que exigirão robustas salvaguardas técnicas, inspeções e transparência. Este é um movimento que só será compreensível integralmente dentro do contexto mais amplo — os vetores de energia, alianças regionais e o permanente xadrez entre potências — onde cada peça deslocada altera possibilidades e obriga reavaliações estratégicas.
O processo seguirá agora os trâmites legislativos nos Estados Unidos e o acompanhamento internacional. A questão essencial permanece: até que ponto a busca por vantagem industrial e geopolítica pode conviver com a necessidade de mitigar os riscos de proliferação nuclear num teatro tão sensível quanto o Oriente Médio?