EUA e Irã iniciam negociações em Islamabad para transformar cessar-fogo em paz duradoura

EUA e Irã iniciam negociações em Islamabad para converter cessar-fogo em acordo duradouro, com mediação paquistanesa e pontos críticos sobre Hormuz e Líbano.

EUA e Irã iniciam negociações em Islamabad para transformar cessar-fogo em paz duradoura

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EUA e Irã iniciam negociações em Islamabad para transformar cessar-fogo em paz duradoura

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, silenciosamente, as linhas de influência no tabuleiro do Oriente Médio, delegações dos EUA e do Irã devem iniciar negociações em Islamabad, sob a mediação do Paquistão, com o objetivo de converter um frágil cessar-fogo em um acordo duradouro após mais de um mês de conflito.

Até o momento permanecem incertos tanto o horário de chegada das delegações quanto a localização exata das reuniões, e até mesmo a data de início gera dúvidas. O hotel Serena, situado na zona fortificada da capital paquistanesa, solicitou a saída de hóspedes na quarta-feira, enquanto a cidade se encontra sob uma vigilância severa, com tropas armadas e múltiplos pontos de controle policiais, evidenciando a delicada arquitetura da segurança que acompanha este tipo de diplomacia.

O hiato entre as propostas das partes é profundo. A oferta americana, que fontes descrevem como composta por quinze pontos, concentra-se no enriquecimento de urânio iraniano, nos mísseis balísticos, no alívio condicionado de sanções e na reabertura do Estreito de Hormuz. Do outro lado, o plano iraniano em dez pontos exige controle do estreito com cobrança de tarifas às embarcações que o transitem, a cessação das operações militares por toda a região e a revogação das sanções.

O Líbano emerge como um ponto crítico. Israel prossegue ataques contra o Hezbollah no território libanês apesar do cessar-fogo, alegando que a trégua não se estende ao Líbano. O vice-presidente norte-americano J.D. Vance aventou um possível “mal-entendido legítimo” por parte de Teerã sobre essa ressalva. Em resposta, o presidente iraniano Massoud Pezeshkian advertiu que os ataques israelenses no Líbano correm o risco de tornar os diálogos “desprovidos de sentido”.

Esses são os encontros bilaterais de mais alto nível desde os diálogos que culminaram no acordo nuclear de 2015, negociado por John Kerry e posteriormente repudiado por Donald Trump em 2018. A delegação americana será liderada por J.D. Vance, acompanhado pelo enviado Steve Witkoff e pelo genro presidencial Jared Kushner. Witkoff já havia participado de conversações mediadas pelo Omã com o ministro das Relações Exteriores iraniano Abbas Araghchi, antes do retorno das hostilidades.

A participação iraniana ainda não foi oficialmente anunciada, mas veículos de imprensa e o Soufan Center mencionam o provável protagonismo do presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf. Para o Soufan Center, a disposição de Teerã em negociar representa uma implícita admissão de que o regime não pode ser derrubado por potências externas — um reconhecimento pragmático das forças em campo.

Espera-se que os encontros ocorram de forma indireta, em salas separadas, com um serviço de transporte dos intermediários paquistaneses realizando o vai-e-vem entre as delegações. Trata-se de uma coreografia diplomática clássica: movimentos discretos, corredores controlados, e negociações feitas por passos laterais, como num abraço estratégico entre arquitetura clássica e cartografia do poder.

Se o diálogo prosperar, será um movimento decisivo no tabuleiro regional — não uma vitória fulminante, mas um reposicionamento cuidadoso dos alicerces da diplomacia que poderá estabilizar, ainda que precariamente, uma tectônica de poder marcada por rivalidades profundas.