Europa articula coalizão pós-conflito para garantir passagem no Estreito de Hormuz sem os EUA
Países europeus articulam coalizão pós-guerra para liberar o Estreito de Hormuz, excluindo os EUA e buscando parcerias com China e Índia.
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Europa articula coalizão pós-conflito para garantir passagem no Estreito de Hormuz sem os EUA
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência no tabuleiro diplomático, países europeus estão elaborando um plano de caráter postbélico para assegurar a liberdade de circulação no Estreito de Hormuz. Fontes diplomáticas e relatório do Wall Street Journal indicam que a iniciativa prevê uma ampla coalizão capaz de realizar operações defensivas — incluindo a bonificação de minas e escolta de navios mercantes —, mas condicionada a uma fase posterior ao conflito vigente.
Segundo interlocutores europeus, o projeto teria características firmemente defensivas e evitaria a presença das partes diretamente belligerantes: Estados Unidos, Israel e Irã. O presidente francês, Emmanuel Macron, explicitou que a missão proposta não incluiria os estados em confronto e que as unidades navais europeias não funcionariam sob comando americano. Trata-se, em síntese, de uma tentativa de erguer alicerces diplomáticos próprios diante de um cenário de confiança mutável entre aliados.
Fontes britânicas e francesas citadas pelo jornal também reportam que Londres e Paris teriam convidado a China e a Índia para um encontro em Paris sobre o Estreito de Hormuz, num gesto destinado a ampliar legitimidade e presença internacional. Ainda não há confirmação sobre a participação de Pequim e Nova Délhi; mas o convite revela a dimensão global do problema e a busca por parceiros que possam oferecer um contraponto ao papel tradicionalmente hegemônico dos EUA.
Um alto funcionário alemão consultado afirmou que é «provável» que a Alemanha adira ao plano europeu para garantir a liberdade de navegação no Estreito. A eventual formação de uma força multinacional europeia — operando fora do comando norte-americano — representa um movimento decisivo no tabuleiro estratégico: uma tentativa de preservar interesses econômicos e de segurança regionais sem escalonar a presença militar americana direto na zona de atrito.
No terreno da realidade marítima, o WSJ reporta que mais de 20 embarcações mercantes cruzaram o Estreito nas últimas 24 horas, entre cargueiros, navios porta-contêineres e petrolíferos, em tráfego de entrada e saída do Golfo Pérsico. Há relatos de que algumas dessas embarcações mantiveram os transponders desligados, prática empregada para reduzir a exposição a possíveis ataques, o que evidencia o clima de insegurança operacional.
Em Nova Iorque, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu publicamente a reabertura do Estreito e o respeito à liberdade de navegação. Em palavras lidas no Palácio de Vidro, Guterres conclamou à moderação e ao recurso à diplomacia em lugar da escalada, lembrando que os direitos marítimos internacionais devem ser respeitados por todas as partes.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um gesto europeu que busca recompor autonomia estratégica e evitar a diluição de responsabilidades cruciais no mar. Ainda que condicionada ao término das hostilidades, a iniciativa evidencia como os atores médios da arquitetura internacional tentam construir instrumentos próprios para gerir riscos onde os alicerces da diplomacia parecem frágeis. É um movimento calculado — um lance no tabuleiro — que pretende preservar rotas vitais ao comércio global sem abrir mão da prudência diplomática e do direito internacional.