Gasto recorde em armas nucleares em 2025: 119 bilhões de dólares e crescente risco estratégico
Relatórios ICAN e SIPRI: gasto recorde de 119 bilhões em armas nucleares em 2025 e aumento das ogivas prontas para uso. Análise de Marco Severini.
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Gasto recorde em armas nucleares em 2025: 119 bilhões de dólares e crescente risco estratégico
Por Marco Severini, Espresso Italia
Relatórios recentes traçam um cenário sombrio e meticulosamente calculado: em 2025 o mundo destinou a armas nucleares a cifra recorde de 119 bilhões de dólares, enquanto as potências atômicas aceleraram a transferência de testadas dos depósitos para os sistemas de lançamento. O dado provém de um estudo da ICAN (International Campaign to Abolish Nuclear Weapons) e é reforçado pelas análises do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute).
Segundo o relatório da ICAN, o total desembolsado pelas nove potências nucleares – Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte – cresceu 19% em relação a 2024, com um incremento de quase 17 bilhões de dólares num único ano. Em uma leitura de longo alcance, nos últimos cinco anos estas nações direcionaram mais de 470 bilhões de dólares para modernizar e expandir seus arsenais.
O SIPRI, por sua vez, confirma uma aparente contradição estratégica: o total global de testadas continuou a cair e, no início de 2026, estava estimado em 12.187 unidades. No entanto, o número de ogivas prontas para emprego aumentou para 9.745. Como sintetiza o diretor do SIPRI, Karim Haggag, essa dicotomia significa que "mesmo com menos ogivas no total, o nível de perigo e de risco nuclear está em ascensão".
No tabuleiro geopolítico, dois atores dominam: Estados Unidos e Rússia detêm, juntos, cerca de 83% do estoque mundial, com mais de 5.000 testadas cada um. A China emerge como a potência que mais rapidamente amplia seu inventário, com aproximadamente 620 ogivas segundo as estimativas do SIPRI. Em termos de gastos, os EUA lideram com 69,2 bilhões de dólares em 2025 — mais do que todos os outros países somados — seguidos pela China (13,5 bilhões), Reino Unido (12,6 bilhões) e Rússia (9,5 bilhões).
Esses investimentos não são episódicos; são programados por décadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os novos mísseis balísticos intercontinentais do programa Sentinel estão previstos para permanecer operacionais além de 2100, e os gastos nucleares projetados entre 2025 e 2034 beiram a casa do trilhão de dólares. Esta é uma arquitetura de longo prazo: alicerces que redesenham fronteiras invisíveis de influência e dissuasão.
Para dar dimensão humana ao cálculo estratégico: segundo os pesquisadores, apenas um dia de gasto mundial em armas nucleares em 2025 teria sido suficiente para garantir a segurança alimentar de mais de dois milhões de pessoas. É um contraste brutal entre prioridades orçamentárias e segurança humana.
Como analista, vejo nesta conjuntura um movimento decisivo no tabuleiro internacional — não um reflexo de inevitabilidade técnica, mas uma escolha política e estratégica. A tectônica de poder que promove esse rearmamento complica qualquer trilha realista rumo ao desarmamento e expõe os alicerces frágeis da diplomacia contemporânea.