Gaza: ‘Uma única pílula antibiótica poderia ter salvado minha perna’ — ex-detento relata negligência médica em prisões israelenses
Ex-detento relata que negligência médica em prisões israelenses levou à amputação de sua perna; apelo por evacuação humanitária e prótese.
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Gaza: ‘Uma única pílula antibiótica poderia ter salvado minha perna’ — ex-detento relata negligência médica em prisões israelenses
Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um relato que revela, com crueza e precisão cartográfica, as falhas nos alicerces da assistência dentro do sistema carcerário militar, Sufian Abu Salah descreve como 52 dias de detenção transformaram a sua vida e redesenharam o seu futuro: da rotina de taxista ao confinamento em uma tenda em al-Fakhari, leste de Khan Younis, após a amputação de sua perna esquerda.
Abu Salah, pai de quatro filhos, afirma ter sido preso no dia 14 de fevereiro de 2024 na Escola Haroun Al-Rashid, em Khan Younis Oeste, local que abrigava famílias deslocadas. Segundo seu testemunho, o local foi cercado, os homens separados das mulheres e das crianças, e ele foi submetido, desde o momento da detenção, a agressões físicas: espancamento, desnudamento, algemas e venda nos olhos. Em seguida, foi transferido por uma sucessão de centros de detenção e interrogatório.
Durante a prisão, um pequeno ferimento na perna esquerda evoluiu para uma infecção que se espalhou do pé ao joelho. Abu Salah assegura que pediu atendimento médico repetidas vezes, mas recebeu apenas fotografias diárias da lesão feitas por uma técnica — e nada mais — durante nove dias antes que um médico fosse consultado. 'Uma única pílula antibiótica poderia ter salvo minha perna, mas deixaram a infecção se alastrar até não haver mais solução', declarou. Essa frase resume, em poucas palavras, a gravidade da negligência médica que ele denuncia.
O relato prossegue com acusações de agressão sobre a própria lesão durante o transporte ao hospital. No estabelecimento onde foi inicialmente atendido, foram realizadas duas limpezas cirúrgicas da ferida. Posteriormente, ele foi transferido ao Sheba Medical Center, em Tel Hashomer, onde os médicos teriam informado que a infecção já demandava amputação para salvar sua vida. Abu Salah recorda o momento da decisão como o mais difícil de sua existência — tomada enquanto permanecia algemado e com os olhos vendados.
Após a cirurgia, ele foi reencaminhado à detenção e relata ter continuado a sofrer privações: falta de alimentação adequada e de cuidados médicos até sua libertação, que ocorreu em 15 de abril de 2024 pelo posto de Kerem Shalom. Ao longo da detenção, teria perdido cerca de 25 quilos — de 75 para aproximadamente 50 kg — e descreve o período como '52 anos, não 52 dias', uma metáfora que ilustra a dimensão pessoal do sofrimento.
Abu Salah também afirma ter testemunhado a morte de outro detento após um suposto espancamento por um soldado, episódio que, segundo o próprio relato, não pôde ser verificado de forma independente. Hoje, vivendo com a esposa e os quatro filhos em uma tenda em al-Fakhari, ele não só perdeu a mobilidade como também o sustento familiar. Antes da guerra, trabalhava como motorista de táxi; agora, busca com urgência a evacuação humanitária para receber tratamentos adicionais e uma prótese.
Do ponto de vista geopolítico e humanitário, o caso de Abu Salah sinaliza um movimento decisivo no tabuleiro: a fragilidade das garantias mínimas de saúde em cenários de conflito e ocupação. A história formula perguntas cruciais para atores internacionais — organismos humanitários, diplomacias e tribunais de direitos humanos — sobre a responsabilidade de assegurar padrões médicos básicos em cadeias e centros de detenção. Em termos práticos, a diferença entre vida e incapacidade, entre reinserção social e exclusão permanente, pode ter sido uma simples pílula, negada em um momento estratégico.
Enquanto solicita a intervenção de organizações humanitárias para obter transporte seguro e tratamento fora da Faixa de Gaza, o apelo de Abu Salah ressoa como um chamado à responsabilidade internacional: garantir que as normas mínimas de assistência médica não sejam vítimas colaterais da tectônica de poder que atravessa a região.