Gelo nas negociações Irã‑EUA: Araghchi volta a Islamabad enquanto tensão escala

Araghchi retorna a Islamabad; negociações Irã‑EUA em impasse sobre Ormuz e nuclear, enquanto Trump pressiona e Teerã rejeita negociações sob coação.

Gelo nas negociações Irã‑EUA: Araghchi volta a Islamabad enquanto tensão escala

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Gelo nas negociações Irã‑EUA: Araghchi volta a Islamabad enquanto tensão escala

Por Marco Severini — Em um movimento que desenha um tabuleiro em mutação, o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, deixou Muscat e chegou a Islamabad, num regresso que antecede uma prevista visita a Moscou. O cenário, no entanto, permanece de gelo entre o Irã e os EUA, com as linhas de contato frágeis e os alicerces da diplomacia postos à prova.

As negociações interrompidas revelam que os pontos de tensão continuam intricados, em especial o controle do Estreito de Ormuz — marcado por um bloqueio duplo iraniano e americano — e o dossier nuclear de Teerã. Enquanto isso, o presidente norte‑americano, Donald Trump, declarou à Fox News que a guerra no Irã "vai terminar muito cedo e nós seremos vitoriosos", sinalizando uma postura pública de firmeza que complica o espaço para concessões discretas.

Do lado iraniano, o presidente Masoud Pezeshkian rejeita negociações sob coação. Segundo a emissora estatal IRIB, em conversa telefônica com o primeiro‑ministro paquistanês Shehbaz Sharif após a interrupção das conversas em Islamabad, Pezeshkian afirmou que Teerã não aceitará "negociações forçadas" enquanto persistirem as ameaças e as ações hostis americanas. Exigiu a eliminação de obstáculos concretos, começando pelo fim do bloqueio a navios que entram e saem dos portos iranianos, como condição para qualquer reabertura do diálogo.

Na prática, o regresso de Araghchi ao Paquistão ocorreu depois de uma série de encontros preliminares: durante sua estada anterior em Islamabad, reuniu‑se com o chefe do Estado‑Maior do Exército paquistanês, Asim Munir, com o vice‑primeiro‑ministro e chanceler Ishaq Dar e com o primeiro‑ministro Shehbaz Sharif. As conversas, segundo relatos, centraram‑se em relações bilaterais e nos desenvolvimentos regionais. Fontes paquistanesas, citadas pela Al Arabiya, indicam que Araghchi recebeu de Teerã autorização para discutir pontos de uma proposta que Islamabad pretende levar aos EUA.

Paralelamente, houve um contato telefônico entre Araghchi e o ministro turco Hakan Fidan, que, por sua vez, teria comunicado os diplomatas norte‑americanos do grupo de negociação, conforme informado pelo Ministério das Relações Exteriores da Turquia. Essas comunicações ilustram como atores regionais tentam redesenhar, com sutileza cartográfica, trajetórias que os atores centrais relutam em trilhar presencialmente.

No front dos Estados Unidos, Trump também recusou que Jared Kushner realizasse a longa viagem de 15 ou 16 horas com o enviado Steve Witkoff para negociações que, segundo ele, poderiam ocorrer por telefone. "Tempo demais perdido em viagem, trabalho demais! Ninguém sabe quem comanda no Irã, nem eles mesmos", escreveu o presidente no Truth Social. O resultado prático: Araghchi e sua equipe deixaram o Paquistão sem um encontro direto com a contraparte norte‑americana, após as reuniões com Sharif e Munir.

Em suma, a situação configura um jogo de xadrez diplomático de alta tensão, onde cada movimento é medido em função de riscos estratégicos e de legitimidade interna. Enquanto Washington mantém uma retórica de pressão, Teerã defende que não haverá retorno ao tabuleiro até que sejam retiradas as ações que considera hostis. O Paquistão, por sua vez, apesar do papel declarado de interlocutor, enfrenta o desafio de transformar boa vontade em avanços práticos num ambiente marcado por desconfianças profundas.

Segue a agenda: Araghchi segue para Moscou, e as próximas partidas diplomáticas dependerão da capacidade das capitais em juntar compromissos mínimos que suavizem as linhas de choque — caso contrário, o impasse poderá evoluir para medidas mais severas que redesenhem, sem aviso, a tectônica de poder regional.