Gastos com armas nucleares em 2025 atingem US$119 bilhões e redesenham o tabuleiro estratégico
Em 2025 foram gastos US$119 bi em armas nucleares; modernização, IA e risco crescente contrastam com necessidades humanitárias.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Gastos com armas nucleares em 2025 atingem US$119 bilhões e redesenham o tabuleiro estratégico
Por Marco Severini — Em um movimento decisivo no tabuleiro das grandes potências, os governos do mundo despenderam 119 bilhões de dólares em armas nucleares ao longo de 2025. Esse montante, objetivado pelos dados do último relatório da ICAN (International Campaign to Abolish Nuclear Weapons), revela um redimensionamento das prioridades públicas em que recursos capazes de erradicar a fome no mundo até 2030 — estimada pela ONU em cerca de 93 bilhões de dólares por ano — são desviados para financiar programas de destruição em massa.
O crescimento nos orçamentos nucleares globalmente foi de 19% em relação ao ano anterior, com um acréscimo absoluto de 16,8 bilhões de dólares. São escolhas políticas que desenham uma nova tectônica de poder, reforçando alicerces que se mostram, simultaneamente, frágeis para a diplomacia contemporânea.
Dados complementares do SIPRI confirmam a gravidade do cenário: embora o estoque total de ogivas tenha registrado uma leve diminuição, situando-se em 12.187 unidades no início de 2026, a quantidade de armas prontas para uso imediato subiu para 9.745 unidades. Em termos práticos, governos transferem testadas de depósitos para sistemas de lançamento — reduzindo tempos de reação e elevando, inevitavelmente, o risco de erro catastrófico, especialmente com a integração crescente da inteligência artificial em cadeias de comando.
Os Estados Unidos mantêm a dianteira nessa corrida, sozinhos responsáveis por 69,2 bilhões de dólares — ou 58% do total mundial — em gastos nucleares. Em segundo plano aparecem a China (13,5 bilhões) e o Reino Unido (12,6 bilhões), este último tendo ultrapassado a Rússia, que alocou 9,5 bilhões. França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte completam o grupo dos nove Estados nucleares. Juntos, esses atores dispendem somas que ultrapassam 226.000 dólares por minuto em capacidades de destruição maciça.
Os compromissos financeiros não são episódicos: os programas de modernização vinculam orçamentos públicos por décadas. Nos EUA, por exemplo, o programa de mísseis intercontinentais Sentinel projeta-se operacionalmente além de 2100, com um custo estimado para a década de 2025–2034 que se aproxima de 1 trilhão de dólares. São investimentos colossais em sistemas cuja utilização implicaria, segundo o direito internacional, crimes de guerra irreparáveis.
O contraste entre essa mobilização de capitais e as necessidades imediatas do planeta é assombroso: bastaria um único dia de gastos globais com arsenais nucleares para garantir a segurança alimentar de mais de dois milhões de pessoas. Esta é uma decisão estratégica — e uma escolha ética — que redesenha fronteiras invisíveis entre prioridades militares e humanas.
Como analista de geopolítica, observo que estamos diante de um redesenho profundo do equilíbrio estratégico. A transferência de ogivas para plataformas de lançamento e a aceleração tecnológica constituem um movimento tático que altera os tempos e riscos do jogo internacional. A estabilidade do sistema internacional depende hoje mais do que nunca da clareza de propósitos nas salas de decisão: será a segurança humana o eixo ou continuarão a prevalecer os investimentos na lógica da dissuasão perpétua?
Em termos práticos, a resposta a essa pergunta definirá os próximos lances no tabuleiro global — e a capacidade das instituições multilaterais de remodelar prioridades antes que erros ou escaladas irreversíveis transformem a arquitetura da paz em ruínas.