Hormuz e os 90 dias que redesenharam o tabuleiro: por que o mundo não voltará ao antigo equilíbrio
Noventa dias que abalaram Hormuz e redesenharam o poder global: por que a paz não devolverá o mundo ao equilíbrio anterior.
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Hormuz e os 90 dias que redesenharam o tabuleiro: por que o mundo não voltará ao antigo equilíbrio
Por Marco Severini — Em noventa dias de choques e contrachques, o mundo assistiu a uma rearrumação tectônica das esferas de poder no Oriente Médio. A sequência de eventos que começou em 28 de fevereiro de 2026 não foi apenas uma sucessão de confrontos militares: foi um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico que expõe alicerces frágeis da diplomacia e redesenha fronteiras invisíveis de influência.
Na madrugada daquele dia, às 08:15 em Teerã, um ataque combinado de aeronaves de Israel e dos EUA — operado sob os codinomes reportados de 'Ruggito del Leone' ou 'Epic Fury' — atingiu centros de comando, bases e estruturas subterrâneas atribuídas aos Guardiões da Revolução. As autoridades informaram a morte da figura suprema do regime, o aiatolá Ali Khamenei, além de dirigentes do Conselho de Segurança Nacional. O golpe inicial precipitou o que já é descrito por analistas como a "Terceira guerra do Golfo".
A resposta iraniana foi imediata e massiva: a operação de retaliação, identificada como 'Vera Promessa 4', mobilizou centenas de mísseis e enxames de drones contra alvos em Israel, instalações americanas no Oriente Médio e parceiros do Golfo. No Líbano, o Hezbollah intensificou ataques contra a fronteira sul de Israel, ampliando a crise em vários fronts.
O terceiro mês da crise trouxe a decisão que agitou mercados e cadeias logísticas: o anúncio do fechamento do estreito de Hormuz. A suspensão do tráfego naval por aquela via, responsável por fluxo crítico de hidrocarbonetos, gerou um efeito dominó econômico global — aumentos abruptos do preço do petróleo, insegurança nas rotas comerciais e pressões inflacionárias em economias dependentes.
Internamente, o Irã viveu uma transição de liderança rápida e discreta: em 8 de março, a Assembleia dos Expertos teria nomeado Mojtaba Khamenei como novo líder supremo, figura que, segundo relatórios, permaneceu reclusa desde sua confirmação. Enquanto isso, esforços diplomáticos emergiram em paralelo com os confrontos: negociações mediadas pelo Paquistão reuniram delegações em Islamabad, marcando os primeiros diálogos diretos entre EUA e Irã desde 1979.
Entre cessar-fogos temporários e retomadas de hostilidades, a diplomacia percorreu um trajeto tortuoso. Em 8 de abril, uma trégua inicial foi assinada com horizonte de duas semanas, apenas para travar novamente por impasses sobre o programa nuclear iraniano e o status de Hormuz. Na sequência, o comando central dos EUA anunciou, em 12 de abril, medidas de controle marítimo no estreito, elevando ainda mais a tensão militar e jurídica ao redor da passagem.
Hoje, relatos indicam que uma possível trégua mais ampla poderá ser assinada em Genebra. Mesmo que se consolide um acordo, a lição dos últimos 90 dias é cristalina: não se trata de um retorno automático ao estado anterior. As estruturas de poder foram abaladas, as alianças testadas e os riscos sistêmicos — energéticos, financeiros e estratégicos — permanecerão como fatores de instabilidade por um longo período.
Do ponto de vista estratégico, o episódio confirma que movimentos decisivos no grande tabuleiro não acontecem em isolamento. Cada ação militar, cada bloqueio de rota, é uma jogada que provoca respostas em cadeia, altera percepções de segurança e redesenha corredores de influência. Para os estados e atores não estatais, a nova realidade exigirá recalibragem de posturas: a estabilidade agora será construída sobre negociações mais duras, garantias multilaterais e uma cartografia renovada de riscos.
Em suma: mesmo que um cessar-fogo seja anunciado em Genebra, o mundo seguirá com as marcas desses 90 dias. A paz, quando vier, será uma trégua cuidadosamente costurada entre interesses divergentes — e não um retorno à complacência de ontem.