Após prêmio em Veneza, documentário «Naza» coloca Yuval Abraham e Rachel Szor no centro de ofensiva do Estado israelense
Após prêmio em Veneza, documentário 'Naza' põe Yuval Abraham e Rachel Szor sob pressão do governo israelense; investigação do Shin Bet é solicitada.
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Após prêmio em Veneza, documentário «Naza» coloca Yuval Abraham e Rachel Szor no centro de ofensiva do Estado israelense
Por Marco Severini — Em um movimento que altera o já delicado equilíbrio entre arte, segurança e política, o documentário «Naza», assinado por Yuval Abraham e Rachel Szor, tornou-se nas últimas horas o foco de uma ofensiva institucional em Israel. Exibido e premiado na Mostra de Veneza, o filme passou rapidamente do aplauso internacional para acusações severas por parte de figuras-chave do governo e dos organismos de segurança.
Segundo o conteúdo do documentário, 24 militares anônimos pertencentes a serviços de inteligência teriam relatado técnicas empregadas pelo IDF que teriam resultado na morte de civis na faixa de Gaza. O relato, baseado em testemunhos confidenciais, provocou reações imediatas e contundentes das autoridades israelenses.
O ministro da Cultura, Miki Zohar, qualificou o filme como "vil" e anunciou intenção de iniciar procedimentos para a revogação da cidadania dos autores, acusando-os de traição e de alimentar um discurso que, segundo ele, serviria a plateias externas hostis. Em carta dirigida ao chefe do Shin Bet, David Zini, Zohar pediu investigação sobre a origem do material e se houve uso ilegítimo de informações sensíveis ou envolvimento de elementos inimigos. Na correspondência, o ministro destacou que "quando fontes anônimas são usadas para difundir acusações graves e falsas contra o Estado de Israel e as forças armadas durante a guerra, é imperativo estabelecer quem está por trás dessas acusações".
O episódio deslocou-se rapidamente pelo tabuleiro institucional: o chefe do estado‑maior, Eyal Zamir, descreveu o documentário como baseado em "calúnias e distorções deliberadas da realidade"; o ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben‑Gvir, pediu que os autores deixem o país; e o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu vinculou o caso a um quadro mais amplo de "incitamento antissemita", atacando também adversários políticos internos.
O IDF por sua vez, em nota oficial, contestou o conteúdo do filme, assinalando a impossibilidade de verificar identidade e cargo das fontes anônimas e reafirmando que toma medidas para minimizar vítimas civis. A conjunção entre posicionamentos do Executivo e declarações das forças armadas revela um esforço coordenado para conter o impacto das alegações no plano interno e internacional.
Na esfera pessoal, Yuval Abraham relatou ter removido seus perfis em redes sociais após uma onda de ataques e fotomontagens ofensivas que chegaram a mirar sua mãe. "Israel é minha casa", disse Abraham em declaração pública, acrescentando que agora teme não poder retornar. Rachel Szor também tem sido alvo de retóricas hostis, e ambos os autores se encontram no epicentro de uma crise que mistura segurança, soberania e liberdade de expressão.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento com significado duplo: por um lado, a resposta do aparelho de Estado visa preservar a coesão institucional e a narrativa de legitimidade das operações militares; por outro, sinaliza para o público externo uma postura inflexível contra denúncias que possam fragilizar a posição de Israel no cenário diplomático.
Como analista, observo que este é um movimento decisivo no tabuleiro político — não apenas uma reação a um filme, mas uma tentativa de redesenhar fronteiras de permissibilidade para a investigação pública e a produção cultural. Os alicerces frágeis da diplomacia e da opinião pública internacional podem sofrer erosões significativas se a escalada for mantida: a medida proposta de revogação da cidadania e as investigações por parte do Shin Bet representam um precedente que mistura segurança nacional e controle sobre narrativas internas.
O caso «Naza» deverá ser acompanhado com atenção pelo mundo cultural e pelos círculos diplomáticos, porque suas repercussões extrapolam a acusação pontual — tocando a tectônica de poder entre Estado, forças armadas e liberdade de imprensa, num momento em que cada movimento no tabuleiro regional tem potência para reconfigurar alianças e desafiar legitimidades.
Em síntese, trata‑se de uma crise simbólica e prática: simbólica, por envolver reputações, memória e narrativa; prática, pela possibilidade de processos legais e de segurança que podem transformar cineastas em peças de um jogo maior. Resta observar se a investigação pedida por Zohar produzirá evidências que justifiquem a retórica estatal, ou se o caso servirá apenas para projetar uma sombra mais densa sobre o espaço crítico dentro de Israel.

