Nora Bussigny em Pordenonelegge: 'O antissionismo pode escalar para o antisemitismo'
Nora Bussigny em Pordenonelegge: investigação mostra como o antissionismo pode derivar em antissemitismo e alerta para redes transnacionais na Itália.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Nora Bussigny em Pordenonelegge: 'O antissionismo pode escalar para o antisemitismo'
Apresentada em anteprima nacional na Pordenonelegge, chega à Itália a edição traduzida do livro da jornalista francesa Nora Bussigny, I nuovi antisemiti. Publicado em italiano pela Seferottobre, o volume reúne uma investigação de campo que passa por um ano de trabalho undercover nas frentes da ultradireita e da ultralente esquerda europeia, mais de cem testemunhos e um capítulo inédito dedicado ao cenário italiano: "La meccanica dell’odio: il caso italiano".
Ao lado da autora esteve, em Pordenone, o ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls, autor da prefazione da edição italiana. A obra original, publicada em 2025 pela Albin Michel com o título Les Nouveaux Antisémites, ganha nesta tradução um capítulo que mapeia, segundo Bussigny, redes associativas conectadas à galáxia internacional dos Fratelli Musulmani em Itália.
O cerne da investigação é contundente e inquietante: um ano de infiltração em manifestações, reuniões e eventos pró-Palestina na França, Bélgica e nos campus de universidades americanas e europeias, incluindo a Columbia University, a Sciences Po e a Université libre de Bruxelles. Nessas imersões, Bussigny descreve como a causa palestina, em determinados ambientes, é instrumentalizada — transformando-se, escreve, numa "licença para excluir, ameaçar, punir".
Entre os achados relatados no livro, a autora afirma ter acessado chats onde era organizada a manipulação de plataformas informativas, citando tentativas de influência sobre páginas como a Wikipedia. Em praças e comícios, Bussigny diz ter presenciado aplausos a manifestações que ela define como apologia do terrorismo. Noutros momentos, assinala a reportagem, manifestações feministas em defesa dos direitos das mulheres e de pessoas LGBTQ+ teriam evitado menções às perseguições e assassinatos de homossexuais na faixa de Gaza controlada pelo Hamas — um contraste que a autora utiliza para ilustrar como hierarquias de preocupação podem se formar dentro de coalizões ativistas.
No capítulo dedicado à Itália, Bussigny traça a presença de redes e organizações com laços transnacionais, argumentando que o padrão de discurso e ação — slogans, canais de coordenação e estratégias de mobilização — é muito semelhante entre França, Reino Unido, Espanha, Alemanha e Itália. A diferença, segundo ela, seria mais temporal do que estrutural: a França teria alguns anos de vantagem em termos de organização e visibilidade política, enquanto a Itália estaria num ponto em que ainda pode "ver o que está chegando — mas só se realmente quiser".
Como analista cultural, proponho ler este livro como um espelho do nosso tempo: não apenas um relatório de infiltração, mas um exercício de semiótica das ruas. A investigação de Bussigny revela o roteiro oculto que atravessa mobilizações globais, onde narrativas de resistência podem, às vezes, ser reconfiguradas em práticas de exclusão. É o eco cultural de uma contemporaneidade em que símbolos e causas convivem com disputas sobre quem pode falar, e como.
O debate suscitato por I nuovi antisemiti é urgente: não apenas sobre a natureza do antisemitismo contemporâneo, mas sobre a tênue linha que o antissionismo pode cruzar quando instrumentalizado. A presença de uma prefazione assinada por Manuel Valls reforça a dimensão político-intelectual do texto, que exige da sociedade civil italiana um olhar atento — e crítico — sobre as formas emergentes de mobilização.
Este livro funciona, portanto, como um chamado à reflexão: como no melhor cinema político, é momento de reframe da realidade e de interrogarmos os roteiros que queremos, de fato, protagonizar. Ler Bussigny hoje é confrontar-se com o roteiro oculto da sociedade e decidir se vamos assistir passivamente ou intervir.

