Novo round de negociações EUA-Irã em Islamabad: Araghchi apresenta resposta iraniana; Witkoff enviado por Trump
Novo round EUA‑Irã em Islamabad: Araghchi apresenta resposta, Witkoff enviado, retaliações a aliados e congelamento de US$344 mi em criptomoedas.
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Novo round de negociações EUA-Irã em Islamabad: Araghchi apresenta resposta iraniana; Witkoff enviado por Trump
Por Marco Severini
Avança no tabuleiro diplomático um novo capítulo das conversações entre Estados Unidos e Irã, agora centrado em Islamabad. O negociador iraniano Ali Bagheri‑Araghchi apresentou a resposta oficial de Teerã — um movimento que reabre linhas de contato após semanas de manobras e consultas discretas. Em paralelo, a Casa Branca enviou o empresário e emissário Steve Witkoff a Islamabad, numa iniciativa que combina diplomacia de alto risco e gestão estratégica de influência.
O cenário, contudo, registra fissuras internas no lado iraniano: Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento, não participará mais da mesa de negociações devido a dissensões internas, um sintoma das pressões políticas que moldam a posição iraniana. É um lembrete de que, no grande tabuleiro, cada movimento é condicionado por equilibrios domésticos que podem redesenhar estratégias externas.
No cerne das discussões americanas há também retaliações em estudo contra aliados europeus: Washington pondera medidas contra Espanha e um reposicionamento sobre reivindicações britânicas relativas às Falklands — mesmo reafirmando, formalmente, neutralidade na disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido. O gesto sinaliza que influências e favores no sistema de alianças estão sujeitos a recalibrações quando convergências estratégicas falham.
O secretário de Defesa Hegseth deixou clara a nova tonalidade norte-americana ao aliados europeus: "acabou o tempo da proteção grátis"; as conversas sobre segurança no Estreito de Hormuz, realizadas na França e no Reino Unido, foram classificadas por ele como meras "conversas". Na linguagem da Realpolitik, trata‑se de reposicionar custos e responsabilidades dentro da arquitetura ocidental de defesa.
Enquanto isso, em outra frente de instabilidade regional, os palestinos votaram para conselhos locais em um processo que pode medir a confiança pública nas instituições. É a primeira votação em Gaza desde quase 20 anos — limitada à cidade de Deir al‑Balah como um ato simbólico e piloto — e a primeira na Cisjordânia desde o início do conflito entre Israel e Hamas. O pleito foca essencialmente em serviços básicos (água, estradas, eletricidade) e busca reforçar laços políticos entre Gaza e Cisjordânia, preparando possível reestruturação futura.
A Autoridade Palestina promoveu as eleições após reformas exigidas por parceiros internacionais: voto por candidatos individuais e maior espaço para jovens e mulheres. No entanto, a fraca participação de partidos e o reduzido número de candidaturas apontam para uma desilusão política latente, emoldurada pela liderança envelhecida de Mahmoud Abbas (90 anos). A afluência — sobretudo na Cisjordânia, onde conselhos locais assumem papel crescente diante de restrições de mobilidade e expansão de assentamentos — será o indicador político mais observável.
Por fim, em Washington, o Tesouro anunciou o congelamento de 344 milhões de dólares em criptomoedas vinculadas a carteiras associadas ao Irã. O secretariado, por meio de Scott Bessent, afirmou que a medida visa degradar a capacidade de Teerã de gerar, movimentar e repatriar fundos, numa operação que combina controle financeiro e pressão estratégica.
Em suma, a tectônica de poder hoje é marcada por movimentos simultâneos: negociações formais e sinais de força paralelos, reajustes de alianças e instrumentos financeiros utilizados como peças do jogo. No tabuleiro da diplomacia, Islamabad tornou-se palco de um lance decisivo que poderá redistribuir alavancas de influência entre Washington, Teerã e seus respectivos parceiros regionais.