Trump diz 'vencemos, agora negociamos'; Irã reage enquanto Rosatom evacua pessoal da usina de Bushehr após ataque
Rosatom evacua parte do pessoal de Bushehr após ataque; EUA oferecem proposta em 15 pontos ao Irã enquanto Trump proclama vitória e Teerã reage.
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Trump diz 'vencemos, agora negociamos'; Irã reage enquanto Rosatom evacua pessoal da usina de Bushehr após ataque
Por Marco Severini — Em um movimento que expõe a crescente complexidade do tabuleiro geopolítico, a holding estatal russa Rosatom, responsável pela operação da usina nuclear de Bushehr, anunciou a evacuação parcial de seu pessoal após o ataque ocorrido ontem contra a instalação. O gestor da empresa, Aleksei Likhachev, informou que 163 pessoas estão sendo transferidas em direção à fronteira entre Irã e Armênia, enquanto aproximadamente 300 trabalhadores permanecem no local para garantir a segurança operacional.
Likhachev deixou claro que esta não será a última retirada: "Deixaremos no local várias dezenas de pessoas", afirmou, enfatizando a existência de um plano organizado de saída. Segundo a Rosatom, os trajetos de evacuação foram comunicados, por canais de inteligência, às lideranças de Israel e dos Estados Unidos. A empresa também destacou a colaboração plena do Irã no processo e manifestou a expectativa de que seja fornecido o apoio necessário para proteger tanto o pessoal quanto a infraestrutura nuclear.
O episódio realça a vulnerabilidade física e simbólica das instalações nucleares numa fase de escalada. A possibilidade de danos em uma instalação sensível como Bushehr desenha um cenário de risco técnico e político: além de responder a um choque imediato, as partes envolvidas confrontam agora os limites dos mecanismos de verificação, notadamente a intervenção e o monitoramento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Paralelamente, os ataques israelenses e norte-americanos também atingiram a residência do renomado cineasta iraniano Abbas Kiarostami, como denunciou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Teerã, Esmail Baghaei. Baghaei questionou, com retórica dura, se a casa do vencedor da Palma de Ouro fazia parte de alguma "ameaça iminente" aos Estados Unidos, e argumentou que a ofensiva não é apenas contra um Estado, mas contra uma cultura e uma civilização enraizada.
No plano diplomático, sinais de desaceleração militar são acompanhados por tentativas de canalizar a crise para mesas de negociação. Fontes citadas pela Associated Press indicam que os Estados Unidos teriam oferecido ao Irã uma proposta em 15 pontos, entregue por intermédio do Paquistão. Entre os pontos referidos figuram: alívio de sanções; cooperação no nucleário civil; retrocesso controlado do programa nuclear iraniano; monitoramento da AIEA; limites ao programa de mísseis; e garantia de livre navegação pelo Estreito de Hormuz.
O governo paquistanês teria sido o mensageiro; Turquia e Paquistão despontam como sedes plausíveis para negociações preliminares. Do lado norte-americano, o discurso público teve sua face explícita: o ex-presidente Trump declarou "Nós vencemos, agora negociações" — uma afirmação que Teerã respondeu com ironia diplomática: "Estão negociando entre si mesmos". A réplica iraniana busca, assim, deslegitimar a narrativa de vitória impostada pelo adversário e deslocar o conflito para um campo de legitimidade e narrativa.
Como analista com visão de "tabuleiro de xadrez", observo dois movimentos decisivos: primeiro, a evacuação da Rosatom reduz a presença internacional nas instalações críticas, criando alicerces frágeis para qualquer gestão conjunta da crise nuclear; segundo, a oferta em 15 pontos revela uma tentativa de transformar ganhos militares momentâneos em moeda de negociação estratégica. O resultado dependerá da capacidade de manutenção de canais discretos, do papel de mediadores regionais e da habilidade das potências em modular coerência entre pressão militar e incentivos diplomáticos — um desafio de tectônica de poder que poderá redesenhar fronteiras invisíveis de influência no Golfo.
Enquanto isso, a prioridade imediata permanece: proteger a integridade da usina de Bushehr, assegurar a segurança do pessoal e evitar escaladas involuntárias que possam atrair atores externos para um confronto mais amplo.